A carta que só agora envio

Querida Lourdes:

Já comecei várias vezes esta missiva (no fundo, estamos sempre a escrever uma mesma carta). Parei a meio, recomecei, fiquei sem saber onde a pus e voltei ao início (da capo, como se diz em linguagem musical).

Uma das muitas coisas que me marcaram foi a sua atitude em relação ao tempo, a sapiência de esperar pela maturação das coisas. Não era o mundo que lhe impunha o tempo, mas a Lourdes que impunha o seu tempo ao mundo. Um tempo que alguém que não viva na Madeira dificilmente terá, por exemplo, para aprender a andar nas pedras do calhau, um equilíbrio fino e menos exótico do que andar nas praias de areia marroquina. Penso que terá sido na Praia Formosa que terá aprendido a andar nas pedras do calhau. Relembrou-nos, no tão bonito documentário Pelas Sombras, de Catarina Mourão, que foi precisamente nessa zona que começou a respirar e não foi muito longe daí que suspendeu, e nos interrompeu, a respiração.

Lembrei-me do seu domínio do tempo – também como forma de resistência –, quando seguia num autocarro colorido no Luxemburgo e o condutor que havia escrupulosamente cumprido a hora de passagem parou por alguns momentos ao cruzar-se com outro autocarro para trocar dois dedos de conversa com o colega. Um halo de luz naquele dia cinzento. Inicialmente, não era para ter apanhado esse autocarro, mas atrasei-me e, tendo decidido esperar pelo próximo, posicionei a cadeira para apreciar o nascer do Sol. Fez-me também lembrar daquele buraquinho na parede feito pelo seu companheiro Manuel Zimbro em vossa casa, tapado por um quadro, donde se podia ver o horizonte e o pôr-do-sol. Por vezes, a beleza do horizonte esconde-se por detrás de um segredo. A Lourdes sentia o desejo de procurar a beleza – muitas vezes no que está à mão de semear – e, além disso, buscava-a partilhando-a. De que nos valeria a beleza se não a pudéssemos partilhar? O facto de se recusar a desenhar as sombras a partir de fotografias, necessitando da presença da pessoa portadora da sombra para reflectir posteriormente essa ausência, era revelador da sua luz.

Há dias, quando cheguei a casa, o filme que homenageava Sidney Poitier – que também nos deixou recentemente – Adivinha Quem Vem Jantar apanhou-me de surpresa. Além do interessante enredo (quando os nossos princípios são confrontados com a realidade – no caso, um casamento entre pessoas de cores de pele diferentes na América do final dos anos 60 do século XX –, que fazemos?), confesso que a reconheci, várias vezes, no olhar de Katharine Hepburn.

Recebi a notícia, por uma amiga, de que a sua respiração se suspendera, Lourdes, quando nos despachávamos para ir ver no mais bonito cinema de Estrasburgo e com um sugestivo nome – Odyssée (Odisseia) – A Dama e o Vagabundo. Depois de ver o filme, passeámos por Estrasburgo (íamos à sua procura). Perto da entrada da catedral, encontrámo-la, finalmente, num músico cego – mas não porque não queria ver – que cantava Bonne Année (Bom Ano) a capella, apesar de já terem retirado os anjos que normalmente ornam aquele local. Na catedral, adquiri a concha que simboliza o Caminho de Santiago, que também passa por Estrasburgo, e que foi feita por um artesão considerado «património vivo» – o que a Lourdes também é – de Neuf-Brisach.

Suspendeu a sua respiração com um ano depois dos noventa: ficou tanto por conversar. Espero, encarecidamente, que a sua casa possa continuar a ser um local de espanto, aberto ao público, representativo do seu trabalho que não acabava nunca, o de nos ajudar, e a natureza, a respirar.

Da capo,

Marco