A mentira de estado como arma eleitoral

1. O discurso do PM no encerramento da discussão do OE 2022 foi obviamente a primeira declaração de António Costa de cunho eleitoralista. Logo se percebeu que o PM não hesitou em abrir uma crise grave, apesar da incoerência com o país cor-de-rosa que vendera aos portugueses. Fê-lo apenas convencido de que obterá uma maioria absoluta nas próximas eleições. Cego de mais poder, esqueceu-se irresponsavelmente dos problemas que a abertura da crise causaria, sobretudo em tempo de pandemia. E parece não ter ponderado que normalmente o povo castiga em eleições antecipadas quem as provocou.

2. Por isso Costa, com os seus poderes de manipulação das mentes alheias e de perversão da verdade dos factos, tudo tem feito para fazer crer aos portugueses que ele, o governo e o PS nada tiveram a ver com o chumbo do Orçamento, nem com a grave crise que tal facto inédito desencadeou. Deste modo, o PM, ainda em funções, pretende surgir perante os portugueses como o salvador da Pátria. Depois de vários ziguezagues sobre o verdadeiro objectivo eleitoral do PS e do PM, Costa perde a vergonha e afirma claramente que o que pretende é uma maioria absoluta, que lhe garanta a estabilidade, não para servir o País, mas para controlar tudo e todos e, definitivamente, instaurar uma espécie de “ditadura formalmente democrática”, que lhe permita pôr e dispor dos dinheiros públicos e da bazuca, sem intervenção de terceiros. Com as promessas irrealistas que sabe não poder cumprir, Costa, em plena República, transforma-se assim numa espécie de Rei-Sol… 

3. Na iminência de ver concretizado o maior sonho da sua já longa vida política, antes nunca alcançado, Costa continua a governar como se ainda detivesse a plenitude dos seus poderes, ignorando, sobranceiro e arrogante, que não passa do chefe de um mero governo de gestão, ainda que com alguns poderes conjunturais impostos pela epidemia, poderes que tem usado para enriquecer abusivamente o seu discurso eleitoral. No modelo de debates adoptado, que parece ter sido inventado para nada ser discutido em profundidade, Costa apresenta-se com a veste de primeiro-ministro e de secretário-geral do PS. Nesses debates, Costa aproveita o tempo de antena de que dispõe para transmitir aos telespectadores a cassete dos seus méritos como governante, estribado num discurso hipotético de que todas as benesses previstas no orçamento que não entrou em vigor, já estariam neste momento à disposição dos portugueses. Pura hipocrisia!

4. Nos debates com os partidos ditos de esquerda, Costa adopta uma postura cordata e condescendente, sobretudo com os que integraram a geringonça. Ao invés, nos debates com os partidos de centro e de direita, o PM, quando lhe convém, actua claramente à maneira de uma esquerda arruaceira, recorrendo à intriga e à maledicência para denegrir a pessoa do candidato seu oponente. Assim, é legítimo admitir que o PM até às eleições, devidamente assessorado, continuará a gastar grande parte do seu tempo a vasculhar a vida dos candidatos de direita desde o seu nascimento até ao presente, dando uma imagem inquisitorial e delatora do combate político em tempo de eleições.

Mas fora dos debates, o PM já começou a ensaiar as diatribes de que tenciona lançar mão, como é hábito dos socialistas, contra os seus adversários, deturpando as afirmações destes, truncando frases e tentando que as afirmações de Costa ganhem foros de verdadeiras. Já se tornou claro que essa é a estratégia escolhida por António Costa para enfraquecer o perigo que representa para ele o seu principal opositor, o candidato do PSD a primeiro-ministro.

5. António Costa exalta-se quando lhe colocam questões que ele interpreta como sendo de carácter. “Não lhe consinto que ponha em causa o meu carácter”, diz enfurecido o PM. É a reacção típica dos seguidores do relativismo ético, dos defensores da ética republicana, dos socialistas – e não só! Esquecem-se de que o carácter é o eu intrínseco da pessoa e que este é por natureza incindível. Embora seja cómodo ignorá-lo, na realidade ninguém escapa, seja em que posição for, ao juízo sobre o seu carácter.

Por fim, permito-me fazer uma advertência a António Costa: as maiorias absolutas não são ganhas por quem as pede; salvo o equívoco verificado com José Sócrates, as maiorias absolutas ganham-se por aqueles que as merecem.