Escondido!

Nas próximas eleições de 30 de janeiro os madeirenses terão em consideração dois pontos fundamentais para a decisão do seu sentido de voto. O primeiro é a governação que finda, e a sua atenção (ou ausência dela) relativamente a esta parcela de Portugal. A segunda é a comparação entre os deputados em lugar elegível, naturalmente das únicas forças políticas em condições de eleger. A coligação PSD-CDS e o PS.

No que concerne à primeira premissa não há muito a dizer. O Governo de Costa foi, indiscutivelmente, o executivo nacional que mais desprezou esta Região Autónoma. Não bastava ser o Governo mais centralista de sempre, admissão da própria ministra da coesão Ana Abrunhosa, como reservou para a Madeira um tratamento de especial perfídia. Significativo é o facto do PS ter voltado a não reservar qualquer linha para as Autonomias no seu programa eleitoral, voltando a limitar a continuidade territorial ao interior peninsular. Por contraposição o PSD de Rui Rio inscreve as principais reivindicações da Madeira na proposta governativa que apresenta aos portugueses. De resto, não deixou de ser cruel que no mesmo dia em que o cabeça de lista regional do partido socialista inaugurava a sua campanha afirmando, sem rir, que o Governo de Costa havia sido o mais benéfico para a Madeira, ter esse mesmo executivo a suspender com legalidade questionável, através de Decreto-lei, a legislação votada em 2019 que permitiria aos madeirenses viajar sem adiantar as verbas de subsídio de mobilidade, caso esse mesmo governo não tivesse engavetado durante 2 anos a medida ao não regulamentá-la . A vida não está mesmo fácil para Carlos Pereira pois, além de “dourar a pílula”, nas patifarias de Costa à RAM, tendo mesmo de recorrer a iniciativas de 2016 legisladas em 2010 (tarifa social da energia) para encontrar algo de bom feito daquele lado para cá, ainda tem de levar às costas um número dois que lhe foi imposto e que promete tirar muitos votos. E é nesta comparação entre listas, e na presença de José Miguel Iglesias, o tal número dois do elenco socialista, que pode estar o fundamento para um resultado desastroso.

Sejamos claros, Iglesias é um indivíduo inteligente e politicamente capaz. Mas é indiscutível que a sua reputação no eleitorado madeirense é um ónus difícil de reverter. Há atores políticos assim em todos os quadrantes, por mais que façam nunca conseguem ter input eleitoral positivo.  Convenhamos, porém, que o Figueirense tem muita responsabilidade na imagem negativa que os madeirenses interiorizaram. Enquanto esteve na Câmara do Funchal sempre transmitiu a sensação que era um elo de ligação com o largo do rato, uma espécie de representante. Um controleiro. O que seria sentido mesmo dentro da coligação de que fazia parte. Essa imagem tornou-se mais visível para o comum madeirense depois de ter ido para líder parlamentar, tendo sido um alvo apetecível dos seus opositores políticos pelo seu vínculo a Lisboa.

O problema, obviamente, não está no facto de ser continental. Há muitos atores políticos da Madeira, incluindo membros do Governos que, ou não nasceram, ou não viveram parte da sua vida, na Madeira. O conceito de madeirensidade, de pertença a estas ilhas, está muito para além do local de nascimento.  O busílis está na forma como Iglésias sempre se referiu a esta terra como estando de fora, como não fazendo parte dela. Dou um exemplo: uma profissional de saúde que conheço, e que sempre trabalhou na Região, e há mais de 15 anos, continua a dizer “Vocês aqui no SESARAM fazem…”, como se ela não fizesse parte da Instituição e da própria Madeira. É um pouco nessa narrativa que assenta o discurso de Iglesias, facto que ele nem se aperceberá, mas que o madeirense intuitivamente capta. E rejeita. Não é por acaso que se mantém escondido na campanha e nos cartazes. Vai ser difícil mantê-lo escondido.