Aquele vermelho do vinho seco In memoriam Lourdes de Castro

Ainda marcado pela lastimável e dolorosa perda de Maria de Lourdes Bettencourt de Castro, uma das maiores pintoras europeias, ao lado de Maria Helena Vieira da Silva, Júlio Pomar, Manuel Cargaleiro e João Vieira, a maior pintora madeirense de sempre, entrei no meu restaurante de eleição, num caminho íngreme e encerado pelo sebo dos típicos carros de cesto do Monte e cada objecto ou paisagem lembram-me a pintura que só uma grande pintora e uma grande madeirense poderiam retratar.

Um restaurante muito rústico onde gosto de almoçar, aqui no Funchal. Um verdadeiro restaurante, talvez o único, talvez aquele que eu mais goste, humilde, autêntico onde, sob a chefia do Adriano um homem sério, um homem amigo, se vai comendo umas açordas, umas carnes de vinho e alho como se comia antigamente, uma sopa de trigo ou milho cozido com chicharrinhos fritos.

Hoje, princípio do ano, senta-se frente a mim um casal simpático. Ela lindíssima, ele anafado como eu, ambos bonitos e com surpresa minha, tendo vivido cá há muitos anos e regressado há pouco, a primeira coisa que oiço é o pedido de um jarrinho de vinho seco. Há tanto tempo que eu não ouvia um “jarrinho de vinho seco” ou um “copinho de vinho seco”. Acompanhava o vinho seco uma língua de vaca estufada, bem feita, com todos os condimentos necessários e eu sentia-me verdadeiramente na Madeira; a Madeira que eu amo é esta. Estabeleci conversa com o casal. Disse-lhe “vinho seco! Meu amigo, é bom?” A cor do vinho era espectacular, era uma cor digna de uma obra de arte do Rubens, linda a cor, vermelha quase de sangue, vermelha quase da bandeira da revolta, da bandeira do futuro. E eu não resisti, mas Adriano sempre atento, o rústico Adriano do restaurante O Rústico, logo se apressou a vir me trazer um copo, dizendo: “Professor, prove.” E eu provei. Extraordinário. Do outro lado e na outra mesa havia muita sabedoria, sabedoria da Madeira, a verdadeira sabedoria e o senhor disse: “Está bom. Precisa de estar mais fresco...”. Logo Adriano se apressou a trazer um copo gelado que tirou do congelador. Eu respondi vulgarmente “São muitos anos a virar… seco, agora diz-se a virar frangos, que horror!” Viramos carne de espetada ou viramos bodião ou viramos espada ou viramos pargo, ou viramos garoupas que já não se encontram, infelizmente. Esta é a Madeira que eu amo, esta é a Madeira que eu gosto. O casal é lindo; a senhora alourada, bonita, casal nos seus sessenta anos, continua apaixonado como quando tinha vinte e saciam-se numa refeição acompanhada de um estupendo vinho seco.

Este casal lembrou-me imediatamente um quadro da nossa Lourdes de Castro; podiam estar projectadas as suas sombras na parede do restaurante, num pano bordado, tudo a preto e branco, com o jarrinho de vinho seco de um vermelho pintado por Miró. Que saudades tuas, querida Lourdes de Castro, que continuas presente em todos os cantos desta ilha onde nasceste e que ao longo dos teus noventa e um anos poucos te descobriram.