Janeiro sonso

As roupas novas usadas até a exaustão nos dias de Festa começavam a ter a bacidez do uso e a inexpressividade do corriqueiro. As luzes das lapinhas e das ruas já não entusiasmavam nem tampouco causavam espanto dos primeiros dias de dezembro. 

Janeiro, que começava enérgico e brilhante, com carrinhos de choque e roupas berrantes das gentes do circo de passagem pela ilha, fogo de artifício e esperanças renovadas num futuro melhor, desvanecia a cada dia, que se somava no calendário que a mercearia ou a agência funerária oferecera pelas festas. Não deixava de ser bizarra a oferenda, em contagem decrescente para as quadras festivas ainda por viver. Os natais deviam dividir-se entre os que recordamos e aqueles em que passamos a ser recordados.

No Dia de Reis cantava-se com fulgor, na esperança de prolongar a fartura daqueles dias de excessos quase sempre bons, quando a briga da bisca não deixava mácula ou o copo de vinho não levava a briga familiar prolongada quase até a primavera, “que vai e volta sempre, mas a mocidade não volta mais”. Mas a partir daí, janeiro era ressaca e melancolia. Era saber que não há fome que não dê em fartura e que o vice-versa também se aplica. Era a certeza de que a ferocidade com que se viviam aqueles dias só podia acabar em culpa. O Santo Amaro às vezes já parecia vir fora de tempo, e talvez fosse tão bom por isso. Era um prolongamento de natal, que já não o é em mais lado algum do País. A despedida forçada, a que se sabia virem sempre dias frios, chuva e desconforto nas zonas altas. A serra que ficava sombria e o verão que nunca mais vem.

A página do calendário, às vezes com gatinhos fofos, outras vezes com imagens de pessoas com roupa desadequada à estação do ano do mês a que se referia, que nunca mais se vira e a névoa que cai sobre o horizonte.

Janeiro era o mês mais sonso do ano. Sempre a prometer mais do que ao que realmente dava. Lento, preguiçoso, que vivia acima das reais possibilidades. Mas era também a preparação para os mais de 300 dias ainda pela frente, até as luzes acenderem de novo e janeiro voltar a parecer um sonho distante.

 

Sandra Cardoso escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas