A grande pandemia do século XXI

Começo este meu primeiro artigo do ano a desejar a todos vós um excelente 2022 e que seja este o ano que marca do início do fim desta pandemia, que nos tem virado a nossa vida do avesso. E começo igualmente esta crónica com o objetivo de desmistificar alguns mitos que têm sido criados e difundidos em torno da covid-19.

Vimos como os negacionistas, no meio da sua loucura, podem ser imensamente perigosos quando negam questões relacionadas com a saúde pública e de como as teorias que os suportam vão do ridículo ao inimaginável. E uma das “teorias”, das que têm sido avançadas mais recentemente, esta para responder aos casos de morte súbita que têm sido notícia nos últimos meses, é de que as vacinas para a covid-19 são as causadoras destas mortes. O que, mais uma vez, neste período de informação e contrainformação, de fake news e dispersão de idiotices nas redes sociais, tem como efeito criar animosidade perante estas vacinas, sem que exista qualquer razão para tal.

Não me canso de dizer isto: hoje em dia se as pessoas vivem até idades muito avançadas tal deve-se a três factores: água limpa, antibióticos e vacinas. Foi esta santíssima trindade da saúde que mudou a esperança de vida dos seres humanos já em pleno século XX, reduzindo a mortandade infantil e permitindo que as pessoas não morressem de, por exemplo, uma ferida. E é tendo esta realidade presente que temos que olhar para as vacinas, sejam elas quais forem.

Dizer que é a vacina para a covid-19 que tem causado as mortes súbitas que se tem verificado é de uma ignorância atroz e bem demonstrativo do alheamento que algumas pessoas estão da realidade. Logo a primeira pergunta que se impõe é: alguém tem noção de qual a principal causa de morte em Portugal?

A principal causa de morte no nosso país são as doenças do aparelho circulatório (dados PORDATA em https://www.pordata.pt/Portugal/%C3%93bitos+por+algumas+causas+de+morte+(percentagem)-758), responsáveis por cerca de 30% do total de mortes em Portugal. São cerca de 35 mil portugueses que morrem anualmente por doenças cardiovasculares, calculando-se que 20 mil sejam por acidentes cerebrovasculares e mil por enfartes do miocárdio. Mais, perto de meio milhão de portugueses sofre de insuficiência cardíaca, sendo que menos de 1/4 tem o seu caso diagnosticado, um problema que a Fundação Portuguesa de Cardiologia considera que deve passar a ser uma prioridade nacional. (fonte: https://observador.pt/2017/09/29/doencas-cardiovasculares-matam-35-mil-portugueses-por-ano/).

O cardiologista Francisco Moscoso Costa, do grupo Hospital da Luz, relatou que nos casos de morte súbita registados, há 12.000 tentativas de ressuscitação, através da aplicação de manobras de reanimação cardiopulmonar, mas apenas 681 pessoas chegaram vivas ao hospital. Em mais de metade dos casos (57%) não foi realizada qualquer manobra de reanimação até à chegada de meios de socorro. Mais diz que grande parte da morte súbita ocorre acima dos 40 anos e é derivada de fatores de risco cardiovasculares comuns, como o sedentarismo, o tabagismo, a dislipidemia (aumento de gordura no sangue), tensão arterial elevada e diabetes. E que é ainda importante alertar a população para que a ausência de sintomas não quer dizer que a pessoa não esteja em risco e acima dos 65 anos as pessoas devem estar alertadas para isto, assim como adotar estilos de vida saudáveis, como perder peso, atividade física regular moderada, alimentação saudável, porque vai contribuir para diminuir o risco de eventos futuros a aumentar a qualidade de vida das pessoas. (fonte: https://observador.pt/2019/03/26/morte-subita-cardiaca-mata-cerca-de-12-mil-portugueses-por-ano/).

À dificuldade de diagnóstico junta-se ainda o facto de a insuficiência cardíaca se poder manter assintomática durante anos, só começando a dar sinais quando o estado é grave demais. O cardiologista Carlos Aguiar, membro da European Society of Cardiology, explica que “quando o coração começa a falhar e a perder a força, há outros órgãos, como os rins, o cérebro e os vasos sanguíneos, que trabalham mais e vão libertando um conjunto de hormonas para compensar essas alterações. Isso faz com que os sintomas não apareçam, mas também com que o problema fique lá e vá piorando. Só quando esses órgãos esgotam a capacidade de compensação é que os sinais da insuficiência cardíaca vêm ao de cima” e “se não forem tratadas, metade das pessoas morrem nos primeiros três anos desde o aparecimento dos sinais”. (fonte: https://observador.pt/especiais/a-sindrome-grave-que-afeta-400-mil-portugueses-mas-muito-muito-poucos-da-forma-como-afeta-salvador-sobral/)

Por outro lado, uma projeção feita pelos investigadores do Centro de Medicina Baseada na Evidência da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa prevê que a carga total da doença, que engloba os anos de vida perdidos por morte e incapacidade, vai sofrer um aumento de 28% face a 2014, o equivalente a 16,8 mil anos de vida perdidos por morte prematura e 10,3 mil anos perdidos devido à incapacidade gerada pela insuficiência cardíaca. Assim, as mortes por insuficiência cardíaca vão aumentar 73% em 2036, comparando com a mortalidade em 2014, devido ao envelhecimento da população. (fonte: https://observador.pt/2019/02/13/estudo-mortes-por-insuficiencia-cardiaca-podem-aumentar-73-em-2036/)

Há um ponto em comum de tudo o que acima partilho convosco. São artigos todos anteriores a março de 2019, ou seja, antes da chegada da COVID-19 a Portugal. E este cenário não se alterou por causa da covid-19. Não são motivados por resposta às mortes nem, conforme qualquer teoria da conspiração rebuscada, uma tentativa de esconder os efeitos das vacinas pela Grande Pharma. Não são as vacinas que matam as pessoas. São maus hábitos, anos de desleixo, o não diagnóstico e a não realização de exames anuais. Isto é, antes de tudo, um seríssimo problema do mundo inteiro e, como muitos especialistas da área consideram, a verdadeira pandemia do século XXI. Logo a seguir à estupidez humana.

 

Luís Miguel Rosa escreve
ao domingo, de 2 em 2 semanas