A síndrome da meretriz

Nos países que vivem à conta do turismo, a população tende a desenvolver um ânimo de oferecimento ou venda de algo, de agrado incondicional e subserviência aos caprichos de quem se quer cativar. O cliente deve ter sempre razão e ainda que não a tenha faz-se um esforço para que os seus desejos e impulsos sejam satisfeitos, mesmo que com algum sacrifício da dignidade ou da ética, diluídas perante as vantagens materiais. Não se trata do deslumbramento provinciano com as façanhas forasteiras ou a inferioridade mascarada por orgulhos peculiares, mas de uma gulosa serventia aos que putativamente trazem um bolso endinheirado para torrar. E se este estado de alma é compreensível nas tramas mercantis de quem oferece algo e de quem o procura comprar, curioso é que o mesmo ânimo de agrado e serventia parece ter tomado conta da governação, dos seus pergaminhos e emissários, com os cidadãos como clientes.

Com o advento da democracia formal, entraram em cena as ditaduras das maiorias numéricas cuja vontade há-de ser habilmente conformada e satisfeita. Mais do que uma noção estratégica de interesse colectivo ou uma matriz de sustentabilidade económica e financeira importa dizer e fazer o que as pessoas querem ouvir e ver feito. Mais do que a cientificidade ou a racionalidade da oferta das decisões importa é a cativação e o agrado das maiorias, ainda que a procura seja vesga ou irracional. Assim como já não releva que se seja importante para um lugar, fundamental é que se se torne importante por nele estar. E há que mimar as massas, seduzíveis e moldáveis na procura de um qualquer interesse imediato e mesquinho, que formam a vontade eleitoral que permitirá a alguém se alcandorar às estruturas de comando do Estado e da sociedade, num jogo expectável de causa e efeito e mútuo merecimento. Para este folhetim irreflectido contribuem decisivamente os meios formativos de opinião que aliciam e moldam, sub-reptícia e tendenciosamente, a vontade maioritária para uma qualquer aparência de bem comum. Neste jogo de agrado e serventia para a formação das maiorias são decisivas as vontades das estruturas corporativas das actividades essenciais à vida comunitária, onde o investimento servil é mais acentuado. Portugal já não é o Estado corporativo do tempo da outra senhora, mas estranhamente e de facto, nunca foi tão corporativista e o poder nunca antes tão sujeito às suas ambições. Bastas vezes o Estado despe-se da sua veste de satisfação do interesse nacional para agradar interesses sectoriais, tornando-se refém de uma vontade parcelar nem sempre racional ou justificada, subjugando e paralisando as suas prerrogativas de uma gestão livre e adequada. Não se trata só da incontornável postura da cortesã que precisa do apoio popular para satisfazer os anseios de uma clientela abastada que produza crescimento económico, mas de uma meretriz desvairada que desbarata o interesse colectivo para a obtenção de uma maioria aquiescente.

Vejam-se os corporativismos secundários emergentes na saúde, fomentados pelo próprio Estado na ânsia cativadora de um voto, que vão fechando o círculo onde se vê definitivamente arredado da decisão racional e livre. Já sem falar nas figurinhas obscuras vergadas aos poderes mais relevantes que, por razões inconfessáveis, se vão entretendo a descapitalizar as franjas de suporte da actuação institucional. Talvez por isto e passados quase 50 anos sobre Abril, Portugal continua a ser um país de desenvolvimento vacilante, com níveis de pobreza vergonhosos, que se prepara para esbanjar mais uma oportunidade ardilosamente chamada de bazuca.