A convenção do Ano Novo

O Homem é pródigo a criar, é-lhe inata esta capacidade. O Homem cria por necessidade, para se adaptar, para justificar, para se diferenciar, para evoluir, no fundo o Homem sem criação é uma não existência. O Homem cria para o bem e para o mal, infelizmente os extremos existem sempre, pois a não existência de um eliminaria automaticamente o outro, a dicotomia Bem e Mal, a Alegria e a Tristeza, o Ódio e o Amor, engraçado como a vida é feita sempre em relação a algo, sem padrão e sem convenção a desordem reina, e a deificação do caos leva ao fim da existência.

O calendário é então, não mais que uma invenção do Homem, claro com base e substância num racional lógico, mas não deixa de ser uma criação do Homem. Isso está bem patente nos calendários conhecidos, o Egípcio dividido em 3 estações de 120 dias, apresentando como referencial o rio Nilo e o Sol, por forma a controlar as épocas agrícolas tendo o seu início no 11 de Setembro com o mês Thout  (também o primeiro mês do calendário Copta), o Calendário Juliano, sendo este um calendário lunisolar, e o Calendário Gregoriano promulgado pelo Papa Gregório XIII no séc XVI, que hoje é utilizado como referencial padrão para a maioria dos países.

Conclusão, o fim de um ano e o início de outro, não é mais que uma criação burocrática imaginada do Homem, sem dúvida uma convenção necessária em termos de gestão e organização vivencial, com sentido prático e permitindo que no globo a comunicação e relação entre nações seja facilitada. Na realidade observando o Sol como astro definidor do Ano, o calendário natural revelaria que a mudança do Ano ocorreria no mesmo ponto onde o planeta Terra se encontraria em referencia ao sol no momento do nosso Nascimento.

Mas como todas as convenções, sendo aceites por todos, deixamos de olhar ao seu racional, mas apenas à sua praticabilidade, e o que o hábito nos demonstra foi a realidade convencionada da criação do momento do fim e do início, qual momento de catarse, purificação ou até de libertação, de deixar lastro para traz e observar o momento do reinício como oportunidade de mudança e criação de novo caminho (ou sequência de um caminho já em processo), de Esperança.

O final do ano, é então essa miríade de possibilidades que parecem advir, e a possibilidade de deixar para traz o que de menos bom ocorreu, é essa a finalidade do Fogo e do eco pós estrondo do mesmo.

Como é bem patente, valorizo pouco ou nada, o final do ano, parece-me vazio de conteúdo, celebra-se o nada (o Homem também é pródigo nisso), no entanto enquanto ser relacional, não vivo fora da convenção e as 00h saí à porta da farmácia na rua dos Ferreiros, uma rua vazia, quente, o ruído dos fogo de artifício era longínquo e o céu que cobria a rua não espelhava nenhum laivo do mesmo, estava uma paz confiante, quiçá esperançosa, senti-me seguro, a Esperança que tanto receio me causa, A.Camus diz que “Toda a infelicidade dos homens provém da esperança”.

Não deixa de ser verdade que reside nos universos criados mentalmente enquanto futuro advir, que não concretizados resultam na infelicidade.

Não obstante naquela singularidade senti o mundo, cheio de contradições e incoerências, com tanto a fazer, tanto a concretizar, o facto da vida ser este processo de  criação contínua transporta-nos para a necessidade existencial.

Devemos observar a vida pela ótica do Zen Master- “We’ll see”, não tirar conclusões precipitadas, aceitar o que vem, modelar a nossa vontade ao possível, evitar julgamentos sumários “Há sempre razões para matar um homem. Pelo contrário, é impossível justificar-se que ele viva. Aí está porque o crime encontra sempre advogados e a inocência por vezes apenas” A.Camus.

O Mundo precisa de razão, equidade, e acima de tudo, renúncia espontânea da conveniência própria.