A aritmética do risco

Estar vivo é um risco e eu aceitei-o sem calculismos.

Afinal que outra alternativa me restava?

Não foi pois tanto um ato de coragem mas antes de mera necessidade.

Necessidade de viver com desprendimento apesar do fim ou sobretudo por ele mesmo. O fim, vim a me aperceber, pode também ser um estímulo para desfrutar de tudo o que não deve ser desperdiçado.

Mas fi-lo sem nunca cair na torpe voracidade de tudo querer ou na estéril desesperança de não encontrar nada que valha a pena.

Aceitei ser desconhecedor de toda a sabedoria em troca do fim de um inquietante desassossego.

Tratou-se de uma despretensiosa permuta em que, como homem pragmático, me limitei a abdicar do inalcançável para aprimorar as minhas estratégias de convergência com o realizável.

Poderás dizer que me acomodei ao meu mundo e que desisti de o transformar em algo melhor, apenas para evitar o risco da deceção.

Mas permitam-me enfatizar que estar vivo é já em si um risco e, neste mundo de transitoriedades, pouco se pode de facto controlar.

Haverá sempre perda e descoberta.

Haverá sempre deceção e alegria.

Haverá sempre dor e ilusão.

E foi algures no acaso que se gera entre o que se almeja e o que se ambiciona, que te encontrei nesse meu mundo em edificação

E soube logo aí que em ti habitava tudo o que faltava em mim.

Nos teus olhos vi a tua essência

Nos teus lábios saboreei o teu fogo

No teu sorriso soube o que era perdição

Nos teus braços encontrei consolo infinito

E tudo o que tu procuravas era um lar a partir do qual estenderias os teus domínios pela generosidade e nunca pela subjugação.

E o que exigias em contrapartida era somente comprometimento, sem espaço para hesitações ou dúvidas.

Mas eu sou só dúvidas e hesitações.

Mas eu sou sobretudo tentativa e erro.

Mas eu sou sempre caminho sem destino.

Há em mim lágrimas que nunca se verteram.

Há em mim arrependimentos mas não redenção.

E entre nós o que havia era uma irreconciliável desconexão entre o que tu pedias e o que eu podia oferecer.

E assim eu tornei-me no único risco que tu não ousaste aceitar.