Desabrigar-se para entrar em casa ou está aí alguém?

«Il y a quelqu’un? [Está aí alguém?]». É assim que, muitas vezes, a minha filha mais velha rompe o jejum da noite. Voga pela casa até encontrar alguém. Há dias, ao ver um programa sobre a Suécia e a relação imbricada que aí se nutre com a natureza, apercebi-me de que àquilo a que habitualmente chamamos de casa, naquele país, é apenas um abrigo, pois casa é tudo o que nos envolve – e, para a experienciar completamente, é preciso sair do abrigo, se desabrigar, para, finalmente, se poder entrar em casa.

Nas férias escolares, fui com as minhas filhas ao museu Unterlinden, em Colmar (França), uma das jóias da coroa da Alsácia na sua Rota dos Vinhos. Esse museu – cujo nome significa literalmente «por debaixo das tílias», que é por certo referência a uma anterior presença de tais árvores perto do convento do século XIII, que ainda hoje ocupa – contém na sua muito consagrada colecção de arte sacra, incluindo o magnífico Retábulo de Issenheim, uma escultura de madeira de São Martinho. Ele também se desabrigou ao cortar com a espada metade da sua capa para dar guarida a um homem pobre (não confundir com pobre homem) que encontrou no caminho: a isto alguns chamam Verão de São Martinho; outros chamam chegar a casa. Quando vejo imagens das fronteiras da União Europeia e leio sobre a criança síria de um ano que morreu de frio na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, tenho a certeza de que está aí alguém. Abrigamo-nos ou entramos em casa?

No dia 16 de Novembro, iniciou-se um ano de celebrações por ocasião do centenário de José Saramago. Às 10 horas desse dia, em várias escolas de Portugal e das Canárias, a efeméride foi assinalada com a leitura do conto A Maior Flor do Mundo. Parecia óbvia, ao menino desse conto, a necessidade de cuidar de uma flor, que por sua vez cuidou dele quando a situação o exigiu. A lista das escolas dessas leituras centenárias é encabeçada por A Voz do Operário – isso teria deixado Saramago contente. Na Madeira, participaram uma escola da Ajuda e outra da Quinta Grande – isso deixou-me contente. No dia em que recebeu o Nobel da Literatura, 10 de Dezembro de 1998, por ser também o dia em que se comemoravam os cinquenta anos da adopção da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Saramago sublinhou que não lhe parecia que os governos a estivessem a cumprir. O único Nobel da Literatura de língua portuguesa até ao momento – que estudou para ser (e foi) serralheiro mecânico – relembrou-nos de que o homem mais sábio que conheceu em toda a sua vida não sabia ler nem escrever. Referia-se ao seu avó Jerónimo, sem se esquecer de nomear a sua avó Josefa. Não deixou também de prestar tributo aos «levantados do chão», aos «condenados da terra» que eram os homens e as mulheres do Alentejo, e de Portugal adentro, que vendiam o trabalho do seu corpo para o poder sustentar, mas que nunca perdiam de vista o horizonte de dignidade. O mesmo autor do livro em que a Península Ibérica se separa do continente europeu e, transformada em ilha, flutua em direcção ao Sul pretendia que, assim, a Europa pudesse ajudar a equilibrar o mundo, incorporando uma ética. Está aí alguém?

No início deste mês, foi anunciado que o prémio Goncourt 2021, um dos mais distintos da literatura francófona, foi atribuído ao senegalês Mohamed Mbougar Sarr, que não está traduzido em Portugal, pelo seu quarto livro La Plus Secrète Mémoire des Hommes. Desde o estabelecimento deste prémio, em 1903, foi a primeira vez que um autor da África subsaariana o granjeou, dizendo que não quer e não pode ser uma excepção. Está aí alguém?