Imperador Carlos de Áustria

Alegro-me por partilhar e exprimir sentimentos de gratidão a Deus e a todos aqueles que durante este século difundiram entre o povo cristão da Madeira, carinho e devoção ao Beato Carlos de Áustria; agradeço a Deus e a São João Paulo II ter acedido ao meu pedido de Beatificação a 3 de outubro de 2004, e aos familiares do Beato Carlos por terem atendido à minha petição para não retirarem os restos mortais da igreja de Nossa Senhora do Monte, ao menos até ao suspirado dia da canonização.

Numa peregrinação realizada pela diocese do Funchal para agradecer a Deus a próxima beatificação do servo de Deus Carlos de Áustria, ao rezarmos na Hungria na igreja de Matheus onde o Imperador Carlos tinha sido coroado Rei da Hungria com a coroa de Santo Estevão, dizia-me uma senhora húngara: “A Hungria começou com um rei santo e termina com outro também santo”. Assim era felizmente, mas com a vitória ou, melhor, com a derrota de toda a Europa quando o imperador Carlos e esposa, já proibido de residir na Áustria, vivia na Suíça, o Papa Bento XV pede ao imperador para exercer o seu poder na Hungria, teme a expansão do comunismo soviético.

O Imperador Carlos com a esposa, filhos e alguns nobres, cerca de oitenta pessoas, viviam no exílio, o Natal de 1918 foi triste, os presentes às crianças foram simbólicos. As duas tentativas para entrar na Hungria e tomar o poder foram frustradas pela maçonaria. Carlos tem repugnância em derramar mais sangue entre os húngaros. A Conferência dos Embaixadores decide exilar o imperador para mais longe. A 3 de  outubro  de 1921 Carlos e Zita, que tinham deixado os filhos na Suíça, são levados para o

Danúbio e embarcam num navio de guerra inglês. O Papa Bento XV envia, através do Núncio, a sua bênção. O imperador pede ao Núncio para interceder junto das autoridades para que ninguém seja condenado à morte.

Na foz do Danúbio mudam para o cruzador britânico Cardiff, Carlos tira o uniforme militar que não usou mais, o oficial de bordo ficou impressionado com a piedade, dignidade, fé e força espiritual dos exilados, numa situação tão dolorosa e dramática.

O comandante não sabe o destino desta família, será Malta, Canárias, Santa Helena, como Napoleão? Carlos e Zita pensam nos filhos, de Londres chega a notícia por telegrama-Funchal ilha da Madeira. A viagem entre  a Europa e o Funchal foi tormentosa, o Atlântico estava muito agitado mas os dois exilados estavam mais aflitos, pela falta dos filhos, de roupa, de dinheiro, de casa, apesar disso Deus concedia-lhes uma grande paz interior. A 19 de novembro o Cardiff entra no porto do Funchal. Do barco, Carlos olha para os montes, vê no alto uma igrejinha com duas torres e diz à esposa: “Ela recorda-me as nossas igrejinhas do Tirol”. Sim, após quatro meses, será a sua casa de repouso em Deus, sob o olhar materno e filial de Nossa Senhora do Monte, na capela do Imaculado Coração de Maria.

O Papa Bento XV tinha telefonado ao Bispo António Pereira Ribeiro para o atender da melhor forma e ajuda-lo nalguma necessidade do corpo ou do espírito. O cônsul britânico sobe ao barco para receber os soberanos. Uma chuva tropical abateu-se sobre a cidade, sinal de bênção e não de catástrofe, acompanham a família imperial o conde e a condessa Hunyady e dois dos seus domésticos. O Bispo do Funchal enviou o Cónego Homem de Gouveia, que falava alemão,  para o saudar, receber e perguntar-lhe se precisava de alguma coisa. Apenas uma coisa pede o santo imperador ao Bispo: “Permissão para em casa ter uma capelinha com o Santíssimo Sacramento.”

Após uma longa viagem, uma vergonhosa injustiça por um homem de Paz, despojado de todos os bens terrenos do grande império, como Job após a perda de todos bens, o imperador entra numa terra que, na sua Catedral já tinha escrito na pedra de entrada a quem pertencia- ao SANTÍSSIMO SACRAMENTO. O Imperador, já conta com a sua maior riqueza: “Àquele que nos ama e com o seu sangue nos livrou dos nossos pecados e fez de nós reis e sacerdotes, para Deus, Seu Pai: a Ele, glória e poder pelos séculos dos séculos. Ámen. (Apocalipse 1,5-6).