Um passo à frente e dois atrás

Vai por aí um rodopio. São normas atrás de normas. Regras em cima de regras. Limitações, restrições, recomendações, obrigações e outras complicações. Um tempo profuso, difuso e confuso, como classificaria o anterior presidente do Governo.

No fundo, o que traz entusiasmados os defensores deste regime tão severo até são preocupações atendíveis. A pandemia está descontrolada, voltam a subir os números de infeções, crescem os internamentos, aumentam os casos de morte por covid.
Este é o quadro geral. Além de mau, carece de intervenção urgente. Mas aí é que as coisas falharam novamente. Na ânsia de se antecipar, de chegar primeiro do que Lisboa e outros governos, a Região entrou num tempo de quase esquizofrenia coletiva. E a pintura ficou borrada. Foram ditadas leis que afinal são recomendações e algumas foram adiadas horas depois. Mais tarde, vem uma resolução oficial que deveria ser o mais clara possível e é mais uma manta de retalhos.
O resultado é a baralhada geral que nos caiu em cima. Já ninguém sabe ao certo o que é obrigatório e o que é recomendável. E se é recomendável, como pode o governo dizer que é preciso fazer assim e assado? Não faz sentido. Como também é incoerente criar toda uma malha repressiva sem explicar como vai ser fiscalizada.
A verdade é que não há como fiscalizar tanta regra, nem há agentes de autoridade suficientes para tanta coisa. Então, que fazem as autoridades regionais? Dão a entender que o cumprimento de normas que obrigam à apresentação de documentos em espaços fechados fica a cargo dos donos dos estabelecimentos.
Apetece perguntar: com que autoridade vai o dono de uma sapataria pedir documentos pessoais aos seus poucos clientes? E o mesmo nos restaurantes e nas lojas de roupa e nas mercearias. E nos bares com um só empregado, como vai ele fazer? Tira a imperial, confirma o certificado de vacinação, desinfeta o balcão, manda por a máscara e apresenta a conta? E isso é viável? Claro que não.
É evidente que voltámos quase à estaca zero em matéria de prevenção para esta nova vaga da pandemia. E estamos todos à nora. Como é normal, os políticos não sabem o que fazer, os especialistas atropelam-se em afirmações que se contrariam e vamos alimentando o circo à medida que aperta o cerco.
No meio deste carrossel, quem manda leva tudo à frente. São direitos escamoteados de uma forma assustadoramente simples. São deveres inventados sem rigor. É verdade que é tudo em nome de um bem maior, a saúde de todos. Essa argumentação é tão válida como perigosa.
Entretanto, há outra verdade: enquanto muitos se indignavam, sobretudo nas redes sociais, muitos outros subiam ao Centro de Vacinação do Tecnopolo. E no meio da confusão foram vacinados cerca de 1.000, sendo que metade fizeram agora a primeira vacina.
Por esse prisma, o caos instalado com a declaração evasiva de quinta-feira funcionou na perfeição. Terá o fim justificado os meios? Talvez. Mas não se sabe ainda com que custos, sobretudo na imagem do presidente do Governo que deveria ter sido poupado a tamanhas indefinições. Ao presidente, cabe o papel de líder, de decidir. Não lhe cabe a tarefa de se expor em explicações técnicas e logísticas.
Porém, convém lembrar que procedimentos com essa ligeireza estão bem na fronteira entre a verdade e o logro. Algures entre a autoridade e o autoritarismo. 
Foi também isso que se notou no caso do Instituto de Desenvolvimento Regional, no início da semana. Apesar de a mudança de protagonistas constituir um ato de gestão política em que a tutela tem toda a legitimidade para intervir, a forma como esse poder foi exercido soou a castigo público sem dó nem piedade. Há muito que não se via uma coisa assim, como foi notado em meio governo e até nos partidos da coligação.