O direito a desligar

No passado dia 3 de novembro de 2021, foi anunciada uma alteração ao Código do Trabalho que prevê o dever dos empregadores em se abster de contactar o trabalhador no período de descanso, salvo situações de força maior, fixando como dever especial o caso de teletrabalho.

Mais concretamente, “o trabalhador tem o direito de, fora do seu horário de trabalho, desligar todos os sistemas de comunicação de serviço com o empregador, ou de não atender solicitações de contacto por parte deste”, constituindo contraordenação grave a sua violação.

Esta alteração ao Código do Trabalho está a ser noticiada um pouco por todo o mundo. O proeminente Financial Times, a título de exemplo, refere que a legislação aprovada em Portugal é “uma das leis mais favoráveis aos trabalhadores da Europa” na regulação do teletrabalho. Já Trevor Noah, no famoso The Daily Show, refere esta alteração ao Código do Trabalho como um bom exemplo das diferenças entre a maioria dos países da Europa em relação aos E.U.A. no tema do trabalho, ironizando que uma vitória laboral nos Estados Unidos se resume aos funcionários da Amazon “poderem escolher entre garrafas de vidro e de plástico para urinar.”

Este Hot Topic pode ser integrado num outro que tem merecido especial atenção ao longo dos últimos anos, designadamente o Work-Life Balance. Hoje em dia, este equilíbrio parece uma proeza impossível. A tecnologia torna os trabalhadores acessíveis 24h por dia e os receios de perda de emprego incentivam jornadas laborais mais longas. Segundo a Harvard Business School, 94% dos profissionais referem trabalhar mais de 50h por semana e quase metade disse ter trabalhado mais de 65h. Os especialistas concordam: o stress agravado do dia de trabalho sem fim prejudica as relações, a saúde e a felicidade em geral. Apesar deste equilíbrio ter um significado diferente para cada indivíduo, os especialistas identificaram um conjunto de 6 dicas transversais.

1. Deixe de lado o perfeccionismo – é difícil na vida adulta manter o hábito da perfeição. A opção mais saudável é lutar pela excelência.

2. Desligue a ficha – não envie mensagens de texto no jogo de futebol do seu filho e não envie emails de trabalho enquanto estiver com a família. Ao não reagir às atualizações do trabalho, irá desenvolver um hábito mais forte de resiliência.

3. Exercício e meditação – dedique tempo ao autocuidado, seja exercício, yoga ou meditação. Se estiver pressionado pelo tempo, comece com exercícios de respiração profunda durante a sua deslocação, uma rápida sessão de 5 minutos de meditação de manhã e à noite e substitua o consumo de álcool por formas mais saudáveis de redução do stress.

4. Limite atividades e pessoas – primeiro, identifique o que é mais importante na sua vida. Em seguida, trace limites firmes para que possa dedicar tempo de qualidade às pessoas e atividades que mais o recompensam.

5. Mude a estrutura da sua vida – concentre-se nas atividades que mais valoriza. Delegue tudo o resto. Isso permite focar-se nas suas prioridades e dar aos outros oportunidades de crescimento.

6. Comece pequeno – muitos workaholics comprometem-se a mudanças drásticas. É uma receita para o fracasso. Comece pequeno e experimente algum sucesso. Depois contrua a partir daí.

Já para as empresas com práticas abusivas segue a dica providenciada por Jeffrey Pfeffer: “Se os médicos praticassem medicina da forma como muitas empresas praticam gestão, haveria muito mais pacientes mortos e muitos mais médicos estariam na prisão.”