FW de Klerk – Um dos arquitetos da paz

O perecimento de F W de Klerk, significa o fechamento de uma liderança da África do Sul durante o regime de “apartheid”, um sistema atribulado de segregação racial, um crime contra a humanidade.

Com a morte de F W de Klerk, fica oportunizada uma chamada à reflexão, para que a trajetória histórica por ele iniciada seja continuada com rumo à igualdade e à justiça, trajetória essa que o agora defunto ex-presidente, intelectual, corajosa e moralmente deu início ao processo de transição para uma África do Sul democrática onde todos pudessem ter e exercer o seu direito de voto. Perante situações flamantes, de Klerk teve a bravura de salvar a África do Sul daquilo que os sul-africanos e o mundo mais temiam, de uma guerra civil sanguinolenta. Foi de Klerk que contra a vontade expressa dos seus, especialmente, os Verkramptes, restituiu à liberdade Nelson Mandela e outros prisioneiros, levantou a interdição aos movimentos e partidos políticos, envidando esforços para o repatriamento de exilados. Capacitou habilmente as negociações com o pretexto de buscar uma democracia para o país.

Apesar de obstáculos de permeio, conseguiu que as conversações chegassem a bom termo. Por isso e também ficará para sempre ligado a Nelson Mandela nos anais da história da África do Sul, deixando um grande legado que neste momento todos os sul-africanos que deveriam reconhecer a grandeza do estadista, fulcral, na transição para a democracia que teve origem na primeira reunião em 1989 com então e ainda prisioneiro Nelson Mandela. Apesar de diferenças abissais de opinião, com todo o criticismo as decisões tomadas pelo último presidente do “apartheid” eram algo inimaginável, inconcebíveis mesmo para alguns dos seus antecessores.

A frieza, a serenidade nas suas decisões assim como a habilidade de distinguir o certo do errado face a situações deveras complicadas e perigosas valerem-no respeito e de que se era de uma pessoa honesta. Apesar de volvidos trinta anos as pessoas em lados diametralmente opostos das divisões políticas, foi-lhes problemático aceitar que o último presidente do “apartheid” tivesse sido exposto como homem de integridade por uma figura de estatura nacional e mundial que foi Nelson Mandela.

Não é muito vulgar que o óbito de uma figura política cause reações através do espetro político com a extrema-direita sul africana estigmatizando-o de traidor e de “sellout” enquanto os de uma formação de extrema-esquerda, repulsivamente, exteriorizaram o sentimento de júbilo pelo passamento de F W de Klerk usando expressões tais como “obrigado meu Deus” e impropérios, causando alguma fúria em todos os setores políticos e populacionais pela forma incivil e repulsiva. Com todo o fanatismo o extremista esqueceu que foi FW de Klerk quem elucubrou um plano e assinou a certidão de óbito ao sistema político que o oprimiu e aos seus familiares durante várias décadas e ignorando que o perdão liberta a alma e remove receios e medos. É certo que reconciliação não é significado de esquecer ou enterrar as dores provocadas por um conflito, claro que não, mas reconciliação significa sim, trabalhar em conjunto, com o intuito de corrigir um legado de injustiças perpetradas no passado.

Quem não enveredar pelo caminho da reconciliação pode assumir-se de líder falhado, e muito pior ainda, é que a democracia incoada pelos dois gigantes, está de momento corrompida, denegriu já a Constituição, delapidou os cofres do estado e ignorou o povo.
Felizmente o espírito de reconciliação prevaleceu no ANC e o seu presidente e Chefe de Estado, Cyril Ramaphosa teve o gesto nobre de decretar quatro dias de luto oficial pela morte do ex-presidente o que é evocador do perdão e da reconciliação. De Klerk morreu atormentado de dores físicas devido a padecimentos graves e depois de amanhã baixa à sua morada derradeira após as desculpas apresentadas pelo crime que foi o “apartheid” numa mensagem gravada e difundida após ter expirado o último suspiro.