Dançar sobre terra

No início, era o jogo, pois deram-nos um cardápio de canções do qual poderíamos escolher, não havendo um alinhamento predeterminado. À terceira canção, ouviu-se um sotaque castelhano a dizer Cantar de Emigração.

Foi dito de tal maneira, que poderia ser emigração ou imigração, como é na realidade, pois emigração e imigração são duas faces da mesma moeda. As primeiras notas do piano tocadas com o, e no, tempo devido, abriam caminho para o lamento do contrabaixo. Nunca um contrabaixo me parecera tão próximo da voz humana. Dois dias antes, recebêramos a notícia de que uma colega estava em estado terminal, quase a ir por aí, a emigrar. Aquela canção sem letra cantada por um contrabaixo e por um piano, naquele Songbird, foi um muito bonito tributo à nossa colega, tendo-o dito no fim a Luís Figueiredo e a João Hasselberg. A nossa colega até pode ter emigrado, mas imigrou muito mais em cada um de nós.

Alguns dias depois, aconteceu ter ido ver um espectáculo de dança contemporânea. O Grand Théâtre, no Luxemburgo, estava quase cheio. No palco, a fundadora da École des Sables — a famosa escola de dança contemporânea africana sediada no Senegal — e uma bailarina que dançou várias vezes com Pina Bausch. A certa altura, uma e outra abraçaram-se, deram mutuamente o colo e deixaram de ter contacto com o chão. Não é necessariamente mau não ter contacto com o chão quando nos dão colo, apesar de ser interessante pensar numa bailarina sem contacto com o chão; ou talvez dançar seja isso mesmo: elevar-se e, quando bem feito, perder o contacto com o chão, mas nunca com o outro. Numa altura de pandemia e de distâncias, foi bonito e urgente ver um abraço dado por braços que já muito viveram — as duas bailarinas são septuagenárias — e que têm ainda muito por abraçar. No entreato, vários homens polvilharam o palco do Grand Théâtre com terra (sim, não é possível não pensar na voz de Caetano a sussurrar-nos ao ouvido: «Terra»), pois, na segunda parte, a companhia recentemente constituída por bailarinos de diferentes países africanos iria presentear-nos com A Sagração da Primavera. A composição de Stravinsky foi sublimada por corpos africanos que dançavam sobre terra («Terra»). Havia ânsia de viver, mas a «eleita» teria de ser sacrificada para que continuasse a haver Primaveras. Como a nossa colega, a eleita para que a Primavera não nos falte nunca.

Quando soube que a nossa colega embarcara, precisei de caminhar, desenrolar os passos perdidos até achar o caminho. Estava num sítio com obras de arte, e fui à procura delas. Talvez vos fale aqui de uma: Glór na Mara (O som do mar), de 1989, ano em que o mundo se abria ao cair o Muro de Berlim. A pintura de Gwen O’Dowd não contém formas figurativas, mas é uma abstracção que nos compele. Às vezes, passo diante daquele quadro e não sei como fazem as outras pessoas para andar por ali tão despreocupadamente ouvindo aquele mar. Já havia visto uma fotografia do mar, da babujinha, quando fomos visitar a nossa colega à clínica, onde aguardava a próxima paragem («prossima fermata», diz-se nos vaporetti em Veneza). Aquele mar revelou-se-me fundamental. No dia em que escrevo, fomos ali à beira-mar — num país que não o tem —, desejar-lhe boas viagens, como na célebre cena do Amarcord. Quando precisar, irei ouvir o som do mar de Gwen O’Dowd e falar-lhe (ou ainda melhor, escutá-la).

Em Portugal, Aristides de Sousa Mendes teve Honras de Panteão. Rui Tavares interpela-nos com acutilância: Aristides põe a fasquia moral muito alta, e é necessário, no quotidiano, sermos merecedores do seu acto de consciência. Assim seja!