Quando a voz se cala

As portas já se abriram, as mochilas já transportam os tablets, os livros, as borrachas, os lápis e tudo o que a escola sugere num início de ano letivo.

A decoração com bambus torna o espaço acolhedor, as cores das paredes deliciam os mais novos e a musica de fundo da rádio escola dá as boas vindas a todos.

A euforia e o calor da amizade na relação de pares, são visíveis neste regresso ao templo das aprendizagens. Em alguns, ainda coabita o medo da escola “grande”, noutros, a incerteza do que os espera causando-lhes uma ambiguidade de emoções.

Neste recanto, onde o coletivo habita e o individual fica esquecido, há vozes que se calam e há corpos que gritam de dor. Há medos e falta de integração numa casa chamada ESCOLA.

Ela enfrenta o desafio do silêncio. Ele enfrenta o desafio de uma mente confusa. Em ambos, as emoções flutuam como um iceberg. Entre o calor de querer estar e a frieza de desejar ir, instala-se a invisibilidade de ser quem se é.

Ao redor, a comunidade escolar mantem uma metodologia de intervenção num plano baseado no ambiente educacional, imposta por limitações culturais e sociais. Contudo, abaixo do iceberg, escondido, encontra-se o diamante do ser humano, a essência, os sabores e dissabores de uma voz calada expressa pelo corpo que fala.

Os pais, numa luta interna, e vulneráveis ao sistema, pedem ajuda na integração. Apelam à saúde mental dos filhos quando estes se sentem fora do sistema. Os pais, sim. Os pais, também fazem parte da escola, da sociedade e da construção de um futuro para a cidadania.

As aulas começam. Os professores fazem a chamada. Os sorrisos propagam-se pela sala. Os burburinhos iniciam-se.

- “Silênciooooo!”, grita o professor.

Os olhares cruzam-se e fixam-nos.

Ele é ela e ela é ele. O foco parece estar centrado no exterior do/a jovem, na roupa, no cabelo, no físico, mas principalmente na DESinformação e Distorção da realidade que eles enfrentam.

O silêncio também é comunicação. Quando a voz se cala e a borracha apaga os sonhos, os tablets desligam e os bambus não cedem. Há que refletir, desconstruir e ressignificar.

Tudo ganha forma quando usado sabiamente. É simples, não é? Colocar em movimento a energia do afeto e da colheita de valores que nos transmitiram (ou deviam ter transmitido) nesta pluralidade que tanto se fala.

Eles têm direito ao respeito e á igualdade de género. Eles têm nome. Eles sofrem. Eles, elas, são um pouco de nós, e nós um pouco deles.

Cis, Trans, Bi, Pan… tantas outras siglas que não definem a essência que os procura.

Integração. Aceitação. Respeito. Igualdade. Valores que nos abraçam neste mundo onde ainda resta a esperança de subir o arco-íris, e abrir a porta a saber que valeu a pena a luta.

Uma cor para cada família que apela por ajuda, uma cor por cada vítima da discriminação, uma cor pela escola que ainda está a aprender, e todas as cores do arco-íris capazes de pintar o muro de uma sociedade onde ainda reina a homofobia.