Lá, na Favelinha

Foi assim que o novo investigador que chegou à universidade me explicou onde estava hospedado.

Tinha arranjado um quarto numa casa a que se tinham acrescentado divisões ao longo do tempo, como favos de mel feitos por abelhas, para suprir a necessidade de novos membros da família. Prática corrente, explicaram-me, principalmente em zonas de veredas ou nas zonas altas da cidade, quando pequenas habitações que seguem a orografia da Madeira se penduram nas suas vertentes, equilibrando-se nos declives. Muitas vezes precárias, clandestinas, sem condições. Lugar onde um quarto é mais barato, porque os preços são altos nas zonas do “cá” da cidade.

Ter colocado no título o “Lá” seguido de vírgula não é aleatório. A vírgula é a fronteira entre os lugares que uma parte da população habita, onde trabalha, onde faz compras e a outra, a que não se vê, ou que não se quer ver. Lugar onde dormem três pessoas num mesmo quarto alugado, ondem moram os que têm dificuldades, os que não podem comprar casa nas zonas baixas e constroem pequenos favos. Vivi mais de 25 anos na Madeira sem ir a um bairro social, às zonas altas, às veredas. Quando fui, descobri espantada o outro lado. O lado dos desfavorecidos, dos desempregados, dos que trabalham por pouco. A maior parte, quando abre a porta, deixa ver santos em quadros, em figuras, com velas, às vezes colocados numa espécie de lapinha que os protege.

Para muitos, alguns, aqueles que ficam para cá da vírgula, que contam as suas existências destas almas como votos, são invisíveis. Provavelmente, até se chocarão ao saber que um investigador brasileiro faça a analogia com as favelas do seu país. Mas, é o que são. Pensei-o quando visitei algumas das áreas da Madeira, na tal ronda exploratória que fiz ao lado de lá da vírgula. 

Talvez tenha sido essa descoberta que me faz sentir magoada quando ouço falar de “parasitas”, de excessos de socialismo nos apoios do rendimento social de inserção, de leis que devem ser mudadas para terminar com a vadiagem, que para aí andam tantos preguiçosos que não querem trabalhar e que os desempregados são tão finos que recusam as ofertas de emprego. E ainda há quem se cole ao discurso do Chega, quando deveria pelo nome do seu partido ser “social”, isto é, ter preocupações com o bem estar de toda a sociedade. Não sei se será falta de imaginação do presidente do Governo Regional, preocupado em responder de alguma forma ao desconforto da classe média. De facto, é mais fácil culpar os que não têm voz do que as empresas que engordam com os apoios do governo.

Miguel Albuquerque repetiu André Ventura ao defender que quem recebe RSI e pode trabalhar, se rejeitar a primeira oportunidade de trabalho (Ventura foi mais soft e disse “todas”, Albuquerque diz que é logo à primeira), deverá perder o apoio. Todavia, como se pode constatar nas estatísticas da Segurança Social, uma parte substancial dos beneficiários de RSI é menor de idade e frequenta a escola obrigatória. São 32,4% do total. As pessoas com mais idade, perto da reforma, são 28,7%.  Muitos recebem RSI, mas trabalham, são 11%, isto é, auferem ordenados que não lhes permitem sustentar a família e recebem ajuda complementar do Estado. Mais de metade dos beneficiários de RSI não tem idade para trabalhar ou já trabalha. Além disso, têm que assinar um contrato de inserção que implica o cumprimento de várias obrigações.

Que dizer, então, daqueles que para o “lá” da vírgula nunca vão, exceto em época de eleições? Aqueles cujos filhos não precisam de saltar de trabalho em trabalho, numa situação de precariedade que dura toda uma vida, que não constroem família? Aqueles para quem 250 euros de um quarto sem casa de banho, na favelinha, correspondem a um jantar num restaurante da moda? Pode-se dizer pouco, porque os ditames da propaganda falam mais alto e as desculpas também.