Redefinição de paradigma

Recentemente foram aprovadas, pelo Ministério da Educação, as competências essenciais para o ensino da matemática, não me vou pronunciar sobre a qualidade ou quantidade dos conteúdos nelas plasmados, deixo isso para os meus colegas da área. Há, contudo, um facto que salta à vista, a falta de coordenação com outras áreas disciplinares, mantém-se uma estrutura de capelinhas, não havendo transversalidade de saberes.

Salta à vista o que acontece entre a matemática e a geometria descritiva onde as gritantes discrepâncias entre as linguagens geram obvias confusões nos alunos. Mas também, a falta de coordenação com o português conduz ao insucesso na matemática. Os alunos aprendem as disciplinas científicas em português e não noutra língua. É, pois, essencial esta articulação para a compreensão de situações problemáticas e dos desafios que lhes são colocados.

À conversa com um professor universitário amigo, referia-lhe o meu desagrado por esta situação, retorquiu-me que a Europa só financia projetos STEM e que a coordenação com as línguas maternas estava implícita. Ora ambos sabemos que o implícito raramente é materializado e que a falta de uma posição política, por parte dos estados nesta matéria, não trará mudanças.

As notícias que nos chegam sobre o plano de recuperação e resiliência perpetuam esta situação, há uma clara tendência de aposta nas STEM, ainda bem que a educação não foi esquecida, mas a falta de aposta na língua e nas ciências sociais causará no futuro danos irreparáveis.

Estes danos já se fazem sentir no combate político na atualidade, no meu artigo anterior, manifestava a minha discordância com a municipalização da educação. A falta de cultura democrática e de capacidade de argumentação política conduziu a que alguns elementos do partido, que governa a autarquia onde resido, me fizessem um ataque pessoal, falso e infame ao invés de rebaterem as ideias políticas por mim defendidas.

Quem me conhece sabe que sou um acérrimo defensor do uso da tecnologia em sala de aula, certo é que para usá-la é necessário conhecê-la, mas neste setor o importante não é a tecnologia em si. O importante são as metodologias, a forma como se ensina usando as ferramentas que temos ao nosso dispor.

É necessário também relembrarmos que nem todos os alunos têm dom para a ciência e para as tecnologias, alguns são dotados para as artes, para a literatura e afins, outros são dotados para a culinária, para a construção de instrumentos musicais e outras profissões tão nobres quanto a ciência. Ao Sr. Ministro da Educação relembro que deve a estes jovens um futuro, que para muitos ficou em suspenso com o fim do ensino vocacional.

Uma nota final, fica mal a alguns partidos com acento no parlamento regional clamarem contra o Governo Regional por políticas de incentivo à formação de docentes, competência do Ministro do Ensino Superior, quando durante o ministério da “Dona Milú” deixaram por omissão que esta desprestigiasse os docentes à força toda.