Os gatos da fazenda

Cara família Madeirense,

Hoje escrevo, com algum humor, acerca de um tópico que sempre me fascinou e que de certa forma está amiúde na ordem do dia. Animais, natureza, ecossistema, futuro. Lembro-me dos tempos de criança em que deambulava pelas fazendas dos vizinhos, familiares e da comunidade arrabaldia. Não havia como não dar com gatos.

Ora a caçar, ora deitados nas suas poses de charme e de malandrice, livres, com características vincadas. Esses gatos são muito diferentes dos que existem em maioria nos dias de hoje. No planeta Terra existem cerca de 600 milhões de gatos domésticos, muitos castrados e sozinhos em apartamentos de luxo de Beverly Hills ou Cannes. Só a título de exemplo, em comparação, existem 40 mil Leões. Sim, esses gatos maiores e mais reles que vivem “livres”. É dito pela ciência que quer Leões quer gatos, têm um antepassado semelhante. Na realidade ambos os animais têm características quase “iguais” divergindo muito, no entanto, em tamanho na evolução ao longo do tempo. Mais, ambos têm necessidades de afecto e necessidades fisiológicas muito aproximadas e também semelhantes à nossas, os seres humanos.

A ciência tem desenvolvido estudos que comprovaram a necessidade de afectos da parte dos animais. Talvez não fosse necessário esperar pela ciência para ver isso, haverá quem diga. No mundo actual, essa parte parece cada vez mais sedimentada. Não lhes falta nada, têm luxos e casas que as mulheres do Afeganistão não possuem. Acontece que, para a maioria destes animais, pode ficar a faltar uma parte muito importante. As necessidades fisiológicas de contacto com outros animais da mesma espécie, do acasalamento, dar aso ao cio e por aí adiante. É preciso relembrar que muitos estão sozinhos e nunca terão essa hipótese, a não ser que vire moda os donos visitarem um amigo e levarem o gato para uns datings com o gato do amigo e assim fica tudo em família enquanto os amigos humanos comem o sushi e bebem o espumante.

Nos últimos anos, tenho tido o privilégio de conhecer alguns gatos chiques, limpinhos, escovados, escarrapachados nos seus sofás comprados no Ikea, castrados, sozinhos e às vezes de ar abatido. São muito diferentes daqueles gatos da fazenda dos avós que desapareciam temporadas para ir às gatas, que caçavam, que tinham uma “personalidade” sui generis. Alguns destes “Super-gatos-Modernos” têm por vezes um défice de personalidade, ou pelo menos uma adulterada e estranha forma de estar. Vários autores têm vindo a sinalizar para a questão que aqui se coloca. Serão estes animais livres? Serão verdadeiramente felizes ou teremos de os começar a levar a terapias, a sessões com o psicólogo? Serão alvo de um regime autoritário e ditatorial por parte dos “donos”, por parte da sociedade? Está certo? Está errado? Merecem ser privados desse lado natural e característico da sua raça desde há milhões de anos? A ciência tem vindo de igual forma a alertar para que a relação seres humanos e animais seja cada vez mais equilibrada e isso, quer nos custe quer não, também implica olhar para a sua liberdade, felicidade. Também é certo que parece melhor um animal cuidado e limpo do que na rua abandonado. Mas também a ciência alerta para a nossa selectividade em não abandonar. Ratos aos milhares vivem abandonados por aí e ninguém faz nada. O mundo é povoado, sobretudo, pelos humanos e seus animais domésticos. E as outras espécies? Como ficam?

Não tenho respostas, mas gosto de reflectir e não ir simplesmente na manada. Uma coisa é certa, os gatos da fazenda são já uma minoria e estão em vias de desaparecimento. Ainda vamos a tempo de os salvar?

Por fim, um livro e uma música!

Livro: Silêncio na Era do Ruído, Erling Kagge

Música: When the leaves come falling down, Van Morrison em jeito de boas vindas ao Outono.

Até…