As Últimas Questões

A longa epidemia que nos tem tanto atormentado, entre os vários efeitos benéficos, pode pôr o problema sempre atual das “Últimas Questões” ou perguntas, sobre o Nikilismo, que se tornou célebre na filosofia de Nietzsche. Segundo ele, o homem não está  em condições ou grau de aceder à verdade porque não existem  valores estáveis. Esta é uma consequência da morte de Deus e de uma visão não perfeita  do tempo e da história. Pelo lado contrário, emerge uma nostalgia de uma plenitude e de uma fé no significado do real, que continuam indispensáveis para podermos continuar a viver.

Apesar de terem já passado 240 anos, desde quando foram apresentadas estas questões, elas continuam atuais, porque fazem parte da dimensão “sapiencial” da existência, põem em causa a investigação das realidades supremas, sobre a origem, de tudo aquilo que pode dar sabor à vida humana para reconhecer e escolher hoje e, para nós, o bem que devemos fazer. O nikilismo confronta-se com estas perguntas, sem poder responder, declarando a impossibilidade do homem sobre as “Últimas Questões”. No fim de um processo de longo raciocinar, a razão torna-se “irracional e estúpida” Diverso da máquina, o homem encontra a admiração e a dor do ser vivo, de encontrar-se no mundo aquilo que para o filósofo Aristóteles está na origem da filosofia e do saber, que torna o homem belo e bela a vida que conduz.

A epidemia covid -19 mostrou quanto pode ser perigoso ignorar a realidade e a verdade das coisas.

Um outro risco do nikilismo é o de confundir a realidade com as próprias percepções subjetivas, como Nietzsche que afirma não existirem verdades, mas somente interpretações, o que traz consigo pesadas consequências a nível político, económico e social. É de todos conhecida a questão dos “fake news”, com as especulações económicas e a manipulação do consenso. O Papa Francisco, a este respeito, cita um passo dos Irmãos Karamazov de F. Dostoevskij: “Quem mente a si mesmo e escuta as próprias mentiras chega ao ponto de não poder mais distinguir a verdade, nem dentro de si, nem à sua volta, e assim começa a não ter mais estima nem em si mesmo, nem nos outros. Depois, como não tem mais estima de ninguém, cessa também de amar, e agora na falta de amor, para sentir-se ocupado e para distrair-se abandona-se às paixões e aos prazeres vulgares, por culpa dos seus vícios torna-se como uma besta, e tudo isto deriva do contínuo mentir, aos outros e a si mesmo”.

O Papa Francisco, dentro de uma linha de pensamento, já exposta por Santo Agostinho nas Confissões, escreve: “A verdade revela-se a quem se abre. Na sua  expressão grega  (aletheia) verdade é aquilo que se manifesta. O correspondente substantivo hebraico (emet) une a verdade à fidelidade, aquilo que é certo, que não engana e não delude. Abrir-se a este tipo de certeza requer humildade do nosso pensamento, ou seja, dar espaço ao doce encontro com o bom, o verdadeiro e o belo”.

A esperança é uma presença que não está à nossa disposição, mas é colocada para além, presente e ao mesmo tempo ausente. É uma transcendência que se derrama no âmbito da vida quotidiana, sempre que o pensamento se encontra constrangido a reafirmá-la sob outra veste. Shakespeare recorda na “Tempestade”: “Esta tua “nenhuma esperança” inclui uma imensa esperança”.