Máscaras, um novo desafio

Sempre tema de conversa. 

Máscaras? Faz lembrar o Japão, onde uma constipaçãozita já  põe o pessoal de cara encoberta.

Uns mais afoitos e desinibidos  atreveram-se a colocar, aguentando olhares de soslaio.

Como o telemóvel, lembram-se?

Quem usasse na rua, era um pedante, um exibicionista, Hoje, quem não no usa é desatualizado, é  antiquado.

Mas voltemos às máscaras.

As dras. Graça e Ana fizeram-se famosas, pela  capacidade de comunicação,  mas também pelas contradições ao sabor do  ziguezaguear da OMS, a sigla  que todos aprenderam, pelos seus conselhos e desconselhos, em linhas pouco seguras e claras. Enfim, ao sabor da epidemia, que passou a pandemia, e a todo o lado chegou…

Deve usar-se, não deve, só dentro, só fora, uma panóplia de situações que nos deixavam literalmente à nora.

Que é proteção para si, que é para os outros.

O certo é que acabou por ser elemento normal e permanente.

Quem não usasse passaria a  inimigo da saúde e da comunidade.

Mas deixemos esse caminho sinuoso das máscaras, que se vai mantendo em determinadas circunstâncias, que se vai aliviando noutras.

O certo é que a máscara alterou-nos a vida e a atitude.

A máscara passou a ser um elemento de solidão, de encobrimento, de camuflagem, de distanciamento.

A comunicação pelos olhos passou a ser a  usual.

Tivemos de aprender a interagir, conhecer ou reconhecer pelo olhar, descobrindo se é riso, ou  simpatia, se é indiferença ou acolhimento, se é rejeição ou aceitação. E nem sempre é fácil.

Então optou-se pela  distância.  Fazer de conta que se não vê, ou não se reconhece.

Como aqueles que, quando não lhes interessasse a conversa, ou a abordagem fosse incómoda, encostavam o telemóvel à cara, a fazer de conta. Às vezes tocava e desmascarava a patranha.

O mundo passou a ser o nosso e mais nenhum.

Cada qual na sua bolha de salvaguarda, na sua zona de conforto e inação.

Ficar em casa passou a ser lema e conselho.

E se no início era tormento ou  saudade, passou  a ser habitual, uma forma de vida, sem o esforço de sair de si para encontrar o outro.

Habituámo-nos à solidão, às paredes que nos cobrem e nos encobrem, que justificam a preguiça de nem mudar de roupa, nem se barbear, nem pôr maquilhagem, nem frequentar cabeleireiro, ou café.

Até nem ir à habitual Missa domingueira, nem ao futebol, nem às aulas…

Adiaram-se os abraços, os beijos nem pensar.

Os convívios regados e barulhentos foram riscados  sine die.

Ficaram suspensas as rodadas de  balcão, os desafios da milhada, as anedotas frescas, os comentários a quem  passava, sem se lhe ver a cara,  a discussão da grande penalidade ou do «var»…

Voltar à «normalidade» passou a ser a ferros.  Abandonar grupos, ensaios, visitas, encontros passou a ser de fácil justificação. Trivial passou a ser o desleixo de si.

Ressalvem-se os artistas que reinventaram sonoridades, escrevinharam temas, uniram-se em écrans cheios de arte, criatividade e graça.  Desenharam sketches, criaram   concursos, aprimoraram a técnica instrumental…

Porém, sem o calor do aplauso, a empatia   do outro lado, sem os incentivos ou apupos dos adeptos, sem as salas cheias da avidez da surpresa, sem o conforto das gargalhadas, sem o fungar dos soluços, sem o sentimento da companhia, a arte esmorecia, a vontade desnudava-se, e a solidão era dor, apatia, inação, adiamento.

Afinal, a máscara que veio e vai ficar, obriga-nos a novas aprendizagens e desafios.

É hora de nos reinventarmos! Porque a vida continua.