A ilusão de viver sem trabalhar

Há uma certa expectativa no ar. E um evidente contentamento, mesmo que em alguns casos misturado com receio. Afinal, o que vem aí não é uma decisão qualquer. É a decisão pela qual esperámos durante longos e penosos meses: é o desconfinamento, a tão desejada ‘libertação’.

Primeiro foram reduzidas as horas de recolher obrigatório. Pelo meio voltámos às escolas e aos restaurantes em grupos maiores. Depois caiu a obrigatoriedade do uso das máscaras na rua. Voltaram os turistas em barcos e aviões. E para a semana, espera-se a reabertura das discotecas.

Mas é claro que não são as discotecas que trazem tanta gente tão expectante e contente. Há milhares de pessoas que não lá vão há décadas. O que causa este frenesim é que a reabertura das discotecas e o fim do recolher obrigatório pressupõem a queda da última barreira que nos separa do antes da covid.

Dito de outra forma, estamos a poucos dias de acabar o intervalo da vida em sociedade tal como a conhecíamos. O que nos passa pela cabeça é uma conta simples: se podemos ir às discotecas, podemos voltar a outros normais. Podemos certamente diminuir as atitudes de distanciamento social. Tomar a bica ao balcão. Apertar a mão do outro e guardar no fundo da gaveta do armário das memórias os desengonçados cumprimentos de cotovelo.

Nestes cerca de 20 meses aprendemos a viver de forma diferente. Apreendemos novos hábitos. Conhecemos o distanciamento, as máscaras, os relatórios diários, os isolamentos. Aprofundámos o teletrabalho e recuperámos o telensino. Lidámos com testes de zaragatoa, com apoios, subsídios e moratórias. Agora, está na altura de, sabendo tudo isso, voltarmos a encarar os riscos da vida sem quase nada disso.

Ainda não há tempo suficientemente distante para se olhar para trás e perceber exatamente o que aconteceu no mundo. Mas, por cá, houve algumas alterações que já podemos ir enumerando. Entre elas, destaca-se a do reforço da cultura do assistencialismo. Dos apoios a rodos. Dos subsídios. Das ajudas a quem precisa e a quem não precisa também. Foi o tempo em que a mão do Estado amparou quase todos. E o Estado multiplicou-se a apareceu-nos sob a forma tradicional dos governos, mas também através de outros níveis de poder. Das câmaras e das juntas. E até de outros poderes paralelos que distribuíram ajuda como nunca, mesmo a quem não pedia nem precisava.

Mas essa política de esperar ajuda não pode ser modo de vida. E muito menos para toda a vida. Não faz sentido continuar a haver tanta falta de trabalhadores e tantos desempregados à espera de trabalho. O que se passa, sobretudo no setor da restauração, é algo impensável. É mesmo inacreditável ver tantos restaurantes que voltaram a ter casa cheia com tanta falta de gente para trabalhar. 

A tão desejada ‘libertação’ não é apenas deixar de usar a máscara na rua e poder circular dia e noite. É também responsabilização, pessoal e coletiva. E vem acompanhada com os conselhos a definir pelas autoridades de saúde e os riscos inerentes a um regresso ao que era antes, o que determina o fim de algumas exceções.

O que está a acontecer nos últimos meses são diferentes níveis de Estado a sobrepor-se aos cidadãos. A criar uma espécie de moratórias sob a forma de políticas sociais ao desbarato.

O que está a acontecer é ajuda sem critério para consumir sem vincar a necessidade de produzir.

O que está a acontecer é a negação da importância do trabalho. Durante este intervalo na vida em sociedade ficou demonstrado que, afinal, é possível viver sem trabalhar. Esse facilitismo contraria em absoluto tudo aquilo que foi ensinado a várias gerações antes da covid.

Se vamos mesmo voltar ao que era antes, talvez seja importante lembrar que, antes, era preciso trabalhar.