Uma vergonha(!) atmosférica

Três bilionários — já começa mal... — resolveram investir em viagens ao espaço. Para as promover — e talvez também porque é uma experiência com que grande parte das crianças de dez anos sonha — foram os próprios nas viagens inaugurais, levando consigo quem lhes apeteceu. A chuva de críticas foi imediata e longa, culminando na da inútil figura do Secretário-Geral das Nações Unidas, esse belo exemplar do especialista da bazófia lusitano — que me enche de pátrio orgulho!

A crítica, absolutamente compreensível, claro, é a de que é imoral alguém atrever-se a usar o seu próprio dinheiro para ir dar um passeio ao topo da atmosfera, sabendo que há tanta gente à fome no fundo desta. Ainda se se gastasse, por quilómetro percorrido, as quantidades ainda mais pornográficas que os Estados gastaram, até os dias de hoje, dos vários erários públicos, ainda vá. Agora, do bolso deles... uma vergonha!

Em vez de eliminar a fome no mundo, preferiram usar o dinheiro — que é deles, concordaremos — para financiar avanços tecnológicos que embarateceram, e prometem embaratecer mais, as viagens espaciais. Talvez daqui a uns anos o meu filho possa ver como é a Lua in situ, por um preço comportável, por culpa desta supérflua corrida de egos agora iniciada. Uma vergonha, reitero!

Ver aqueles imorais milhões, demasiado volumosos para o meu bolso, abominavelmente gastos no financiamento de engenheiros e suas empresas, vis colaboradores desta feira de vaidades, trará, estou certo, muita consternação a quem vê a pobreza ali mesmo, à distância de um dos ecrãs à mão de semear lá por casa. Também é possível que, até ver as imagens daquele tão dispendioso quanto perturbador falo gigante a subir num rasto de notas em chamas, muitas pessoas não se tenham apercebido da quantidade de dinheiro que entregaram a estes senhores, em troca dos muitos serviços que oferecem. Dinheiro que, não duvido, esperavam ver entregue à caridade depois de trocado pelo serviço ou produto, absolutamente necessário e nada supérfluo, que estes esbanjadores lhes venderam.

Já os matemáticos e programadores, pagos daqueles pornográficos orçamentos privados, arrancaram as viagens espaciais das benévolas mãos dos Estados, levando à periferia atmosférica gente que não usa farda, nem é um académico sob o peso do selo de aprovação prévia do Estado; ficou estragada a vizinhança. Isto de cobrar cerca de dez vezes menos a uma escola para lhes levar um projecto científico para o espaço, tirando aquele dinheiro todo à agência espacial do Estado, devia ser proibido. Afinal, já sabemos, aquela imoral quantia podia ter sido entregue aos Estados para que acabem com a fome no mundo, como têm feito há séculos.

Já os exércitos de mineiros, operários, condutores e outros, cúmplices na imoral construção dos supérfluos brinquedos destes perversos milionários, seriam muito mais virtuosos se esticassem a mão em concha, à espera da esmola que os justíssimos críticos dos bilionários espaciais lhes entregariam de bom grado, se apenas não tivessem gastado o seu excedente nos serviços e produtos daqueles — essenciais, todos eles.

É sempre mais fácil fazer caridade com o dinheiro dos outros. Quando é em nosso nome, através dos impostos (entretanto maioritariamente consumidos pela máquina burocrática), ainda melhor. Afaga-nos o ego e liberta-nos de o fazermos por nós, cara a cara.

Já combater a fome com emprego, democratizando uma coisa que até há bem pouco era apenas e só para uma pequena elite controlada, é... uma vergonha!.