Naturalmente diversos

Esta reflexão vem a propósito de uma reportagem publicada esta semana neste jornal sobre o veganismo na Madeira. Felizmente vivemos num país plural e numa ilha livre onde podemos escolher o nosso modo de vida, desde que as nossas ações não impliquem concessões na vida dos outros.

No passado, tudo o que divergia da norma era desprezado. Não havia tolerância para com o diferente. Avançamos muito desde então, mas infelizmente ainda persistem bolsas de intolerância, seja nas regiões mais diversas do mundo, seja na nossa comunidade. Ao mesmo tempo que se extinguem intolerâncias arcaicas através da melhoria do ensino, da formação e tecnologia, existem novas fúrias cegas que os populistas teimam em explorar para seu usufruto de poder.

É essencial que os órgãos políticos continuem a insistir na apresentação da diversidade à opinião pública como chave para o desenvolvimento. Não nos esqueçamos que o lema da União Europeia é “unidos na diversidade”.

Como agricultora em modo de produção biológico, naturalmente vejo na sustentabilidade alimentar e produtiva agroalimentar a chave para um enquadramento ambiental mais saudável – para todo o ecossistema, incluindo para o próprio ser humano. A sustentabilidade só pode existir com um enfoque na diversificação, daí a agricultura biológica ter uma abordagem holística, integrada e contraria às monoculturas.

Mas a reportagem suprarreferida não olha para a alimentação tradicional mediterrânea e a vegetariana/vegana como dois iguais. Bem pelo contrário. São utilizadas expressões como “conversão para estes regimes alimentares”, “sinais de evolução”, e “o vegetarianismo/veganismo como um regime alimentar alternativo, mais saudável, ecológico e naturalmente mais ético”.

Repito o que é alegado: o veganismo como sendo “naturalmente mais ético”. Mas como é que se chega a essa conclusão moralista? Para além da perigosidade deste raciocínio, convém ter em conta que se formos analisar a pegada de carbono produzida pelos bens alimentares basilares da alimentação vegetariana/vegana, não é linear que ela seja sempre menor que a convencional. Por exemplo, a soja produzida de forma intensiva na América Latina e o desrespeito pelas condições laborais em muitas explorações agrícolas de grande extensão na Europa e além, são evidências de como não existem sistemas alimentares “santos”. A diversidade faz parte da nossa evolução humana, fortalecida pelo necessário maior enfoque e apoio à produção vegetal e animal local. Ainda para mais numa ilha como a nossa, onde é fulcral investir no fortalecimento da soberania alimentar.

Respeito mútuo é a pedra angular da nossa democracia. Vai desde o respeito por ideologias políticas diferentes das nossas, pela tolerância religiosa, pela liberdade na orientação sexual de cada um, e sim, também pela forma diferente de cada um se alimentar.