Liberdade e irresponsabilidade

Todos os dias temos múltiplos exemplos de desvarios que correm descontroladamente, sobretudo nas redes sociais. Um misto de liberdade de expressão e de irresponsabilidade. Em muitos casos – demasiados mesmo – com doses excessivas de ignorância, algumas delas expondo uma certa felicidade por serem ignorantes. 

Estamos em tempo de campanha eleitoral, que surge após uma longa, penosa e dispendiosa pré-campanha. Tudo com ingredientes explosivos, altamente favoráveis à deflagração de impropérios e de defesa de pontos de vista para todos os gostos. Que ao menos faça bem a quem os descarrega!

Se no âmbito das campanhas políticas já estamos amplamente avisados, há outras áreas em que não é possível tolerar a enorme irresponsabilidade que vai saltando dos teclados, agora felizmente ao alcance de qualquer pessoa.

Dois exemplos concretos, da semana finda, ambos relacionados com o hospital e o sistema de saúde, com origem em duas ocorrências noticiadas pelo JM e que perturbaram de alguma forma o normal funcionamento das Urgências.

Num dos casos, um utente decidiu protestar de forma criativa, mas pacífica, ao enviar um ramo de flores com destinatários que viriam a ser claramente identificados, após alguma confusão inicial.

Noutro caso, ocorrido durante uma das madrugadas desta semana, um jovem irrompeu pelas Urgências acompanhado pela sua mãe; inconformado com o tempo de espera, o jovem, visivelmente alterado, protagonizou cenas e linguagem inqualificáveis, inclusive contra a sua própria mãe.

Estes são os dois factos, que o JM noticiou, porque os dois factos aconteceram.

O que se seguiu, sobretudo nesse mundo descontrolado das redes sociais, é altamente deplorável, com a irresponsabilidade elevada ao mais alto expoente. Na esmagadora maioria dos casos, a descambar de forma desabrida contra os profissionais de saúde. Mesmo havendo casos de comprovado mau atendimento – há exemplos pontuais que podiam e devem ser evitados – não é normal este turbilhão de fel, envolto no total desconhecimento das circunstâncias que se atrevem comentar e julgar.

Tratando-se de um setor que, compreensivelmente, exige alguma ponderação e tolerância, não é normal que se queira e se sinta satisfação em instigar a total balbúrdia, eventualmente com a maldita política outra vez como pano de fundo.

Não tarda nada e teremos notícias, outra vez, de “falhas” geradas por botões desligados propositadamente. Ou da falta de alguns fármacos que não foram atempadamente encomendados. A responsabilidade de não fomentar este tipo de terrorismo compete a toda a sociedade, logicamente também aos órgãos de Comunicação Social, como é o nosso caso.

A Saúde não precisa que se ‘fabrique’ falhas e que se amplie os imponderáveis. Esta área está naturalmente interligada com desfechos indesejáveis e incontornáveis. Agravar essa natureza é que é desumano.