Eles ganharam...

Acordei tarde, já que ainda não havia aulas. Era a semana da praxe e eu só ia ter com a malta para almoçar, como combinado. Liguei a televisão e, como não tinha serviço de cabo, mas o satélite do prédio funcionava bastante bem, deixei o aparelho a falar-me o inglês da BBCNews. Fui preparar o pequeno-almoço (deitar cereais e leite numa malga) e voltei para a sala interessado no relato de algo dramático que ouvia. As imagens de uma torre envolta em fumo, identificada em rodapé como o World Trade Center. Diziam os jornalistas, com ar tão inseguro como incrédulo, que um avião tinha chocado. A curiosidade puxou-me para o sofá, malga na mão.

Pouco depois, o impensável. Em directo, no ecrã, vi a silhueta de um avião entrar, meio adernado, pela torre do lado dentro, e uma bola de fogo sair do lado oposto. Os jornalistas calaram-se por segundos, longos. Ouvi um “Oh!, my God!” espremido entredentes e lembrei-me de fechar a boca. Lembro-me de pensar “não é coincidência; seria muito azar... dois!?” Lembro-me de chorar, sem saber ao certo que se passava. Lembro-me de ver corpos cair pelas janelas. Foi aí que chorei convulsivamente, numa consternação repentina. Vesti-me e saí dali para fora. Depois soube que, entretanto, veio tudo abaixo. Mais corpos e mais dor por empatia.

Vinte anos depois, ainda sinto os olhos turvos de lágrimas de cada vez que vejo imagens das pessoas a saltar para a morte, escolhendo morrer de asfixia na queda, a morrer de asfixia por inalação do fumo. Vinte anos depois, ainda sinto que o terror, intencionalmente provocado por aquela acção, com aquelas imagens, resultou. Vinte anos depois, o mundo em que eu achava que vivia ainda não voltou.

De repente ninguém quer dar um passo na vida sem ter a impossível garantia de que é absolutamente seguro. De repente, o objectivo não é viver, mas sobreviver. De repente, quem só quer viver a vida pela vida é maluco, irresponsável, imprudente e um perigo para todos e mais algum.

Foi naquele maldito dia em que os maluquinhos que querem que o mundo viva como eles acham que deve viver, como acreditam que Deus ordena, que o mundo que eu conhecia perdeu o juízo. Sem acreditar que Deus o ordenou, como os maluquinhos, aquele meu mundo comprimiu-se, opressivamente, em volta da liberdade, asfixiando-a. Passamos todos a ser suspeitos por defeito, culpados até prova em contrário. Se tivermos um tom de pele mais escuro, então...!

Aquele fervor securitário inicial pouco tem relaxado, até porque os nervos da parte mais vocal e reivindicativa da sociedade nunca recuperaram, tornando-se mais sensíveis a toda e qualquer sugestão de perigo, reagindo sempre de uma forma que eu, pessoalmente, não consigo descrever de outra maneira que não “alérgica”, ou “auto-imune”. Se hoje houver a percepção de um aumento de picadas de pulgas, amanhã o mundo estará em estado de emergência, com banhos de desinfectante compulsivos a cada oito horas e queima de roupa obrigatória ao fim de cada semana (mero exemplo; uma caricatura, se quisermos). E ai de quem questionar...!

Vinte anos depois, reitero, o terror daquela acção, cuja efeméride hoje nos deprime, funcionou. Não o digo de ânimo leve, mas antes com a tristeza de quem vê a vida como um milagre a ser celebrado, não temido.