Coerência e conteúdo

Para além das autárquicas em Portugal, a 26 de setembro decorrem também eleições na Alemanha, mas para as eleições legislativas. A única certeza que esse dia trará, é o fim da Era Merkel, com repercussões para toda a União Europeia. Apesar de todas as críticas de que foi alvo durante a crise da dívida soberana, muitos sentirão a sua falta, quer pela sua coerência, quer pela sua política de consensos.

As sondagens indicam que será necessário um triunvirato de coligação e certamente que os parceiros juniores, os liberais FDP ou bloquistas Die Linke, serão decisivos para a formação governativa, ou com os conservadores CDU/CSU, ou socialistas SPD, ou os Verdes no leme.

Depois de anos a servir de “saco de pancada” em sucessivas eleições e sondagens, pela primeira vez o SPD lidera as previsões para o ato eleitoral com o seu reservado candidato Olaf Scholz, antigo presidente da Câmara de Hamburgo e atual ministro das finanças na coligação CDU/SPD. Veremos se o escândalo das recentes buscas no seu ministério o vai afetar nas eleições.

Depois do fervor inicial com os Verdes, a candidata Annalena Baerbock comete uma série de erros de campanha, incluindo incoerências no seu currículo. O candidato da CDU, o atual presidente da região de Nordrhein-Westfalen Armin Laschet, tem até dificuldade em convencer os militantes do seu próprio partido. Existem relatos de vários dirigentes locais que se recusam a por outdoors com a cara de Laschet, optando só pela imagem dos candidatos a deputados dessas regiões. Interessante.

Problemas de coerência também se passam em França. Aí, as eleições presidenciais estão mais distantes – a primeira volta está prevista para abril de 2022, mas já existem alguns pré-candidatos no terreno a fazer o seu caminho político. Olhemos para um deles, nomeadamente para um que quer ser o candidato presidencial dos conservadores Les Républicains.

Michel Barnier, ex-comissário europeu, o homem que negociou o Brexit em nome de todos nós europeus, crítico feroz da tentativa do Reino Unido em escolher as partes mas deliciosas do projeto comunitário, ‘deitando fora’ o que menos vendia à população britânica, (a famosa estratégia “cherry-picking”), agora acordou pré-candidato presidencial francês com laivos eurocéticos.

Barnier quer um referendo francês para criar o que apelida de “escudo constitucional”, que permitiria bloquear certa legislação e jurisprudência comunitária em França. Ou seja, precisamente aquilo que o Reino Unido queria e alguns outros Estados-membros, a Leste, pretendem instituir. Um tremendo volte-face de alguém que se dizia campeão da integração europeia!

Está na mão do eleitor premiar ou punir as falhas de coerência e de conteúdo - seja na Alemanha, na França ou nas autárquicas portuguesas – porque são precisamente essas as características que a Europa desesperadamente precisa para fazer face à miríade de desafios que nos são colocados em todos os níveis de governação.

 


Sugestão da Semana: Faz hoje vinte anos que foi perpetrado o ataque terrorista contra as Torres Gémeas em Nova Iorque. Os recentes acontecimentos no Afeganistão voltam a colocar as preocupações com o fundamentalismo islâmico no topo da agenda internacional. É lamentável que depois de vinte anos e com tanta informação livremente disponível, expressões como “terrorista” ou “talibã” sejam usadas para o pequeno combate da partidarite crónica. A quem o faz, aproveite-se dos vários documentários que tantos canais de televisão estão a emitir este fim-de-semana sobre o terrorismo internacional e sobre os bastiões dos verdadeiros talibãs.