Onde estávamos há 20 anos?

Ao longo da História há centenas, milhares de acontecimentos que, de algum modo, mudaram o Mundo ou a perceção que dele temos. A chegada da expedição de Cristóvão Colombo ao continente a que hoje chamamos América é um bom exemplo. A notícia, porém, espalhou-se muito lentamente, e a generalidade da população não teria razões especiais para se lembrar da data do facto.

Entretanto, a agilização das comunicações e a evolução da cobertura e divulgação noticiosas, que hoje são quase instantâneas, aproximou-nos e tornou-nos muito mais conscientes do momento. A transmissão radiofónica do discurso do Rei Jorge VI anunciando a entrada do Reino Unido na II Guerra Mundial, a capitulação da Alemanha ou a abdicação do Imperador Shōwa (Hirohito) do Japão, ou a transmissão televisiva da coroação de Isabel II, são, assim, marcos históricos em cima dos acontecimentos históricos. A morte do Presidente Kennedy a 22 de novembro de 1963 introduziu na cultura popular americana a pergunta “Onde estavas quando…?”, tal como a revolução de 25 de abril de 1974 em Portugal.

Ao nível global, o acontecimento mais marcante, impactante e chocante, será provavelmente o do choque do segundo avião contra as Torres Gémeas, em Nova Iorque, há precisamente 20 anos, a 11 de setembro de 2001. Analisando friamente (se é que nos é possível analisar friamente, mesmo 20 anos depois) e a operação militar de guerrilha, foi extremamente bem-sucedida. Chocou e abalou o Mundo inteiro em direto, de manhã nos EUA, ao início da tarde na Europa e África, ao final do dia no Médio Oriente e à noite na Ásia. Atrevo-me a dizer que, em direto ou diferido, serão as imagens mais vezes vistas na História e apesar de as ter visto vezes sem conta, ainda hoje me impressionam.

Qualquer pessoa que se lembre de ser gente, fará uma boa ideia de onde estava naquele dia.

As primeiras reações, nalguns casos ainda antes da garantia as buscas e salvamentos de eventuais sobreviventes, foram no sentido de encontrar e punir os responsáveis. Apenas uma semana depois, o Congresso dos EUS autorizou a intervenção no Afeganistão com esse propósito. Depois de atingidos os objetivos iniciais a missão inicial transformou-se lentamente numa ocupação que durou quase 20 anos.

Foi o maior ataque sofrido pelos EUA, no seu território, com quase 3000 vítimas mortais. Mas, contas feitas, as maiores vítimas foram a Liberdade e as Democracias de modelo ocidental.

Como quase sempre acontece nestas situações, houve uma deriva securitária. Depois do reforço policial e a subida temporária do estado de alerta (não apenas compreensíveis, mas necessários), foi publicada vária legislação restritiva dos direitos, liberdades e garantias de toda a população. Podemos dizer que abdicar de liberdades individuais em troca de segurança comum é um bom negócio. O problema é que quando abdicamos da liberdade em troca de mais segurança, muitas vezes perdemos ambas.

Por exemplo, para contornar as leis nos EUA, foi criada uma prisão especial fora de território americano onde a lei é pouco mais do que uma palavra, vazia de significado, a tortura voltou a fazer parte dos métodos de interrogatório (sem qualquer eficácia comprovada) e a inversão do ónus de prova parece ser regra. Valeu a pena? Será que o Mundo de hoje é mais seguro que há 20 anos?

Em termos de perceção, os inquéritos que vão sendo publicados parecem indicar que não, mas há dados mais inquietantes: nos 20 anos antes do 11 de setembro foram contabilizados menos de duas dezenas de ataques terroristas em todo o Mundo. Nos 5 anos de 2015 a 2019 ocorreram quatro dezenas, com uma acentuada subida de ataques de extrema-direita (coincidentemente, adeptos de políticas mais securitárias)…

No Afeganistão, 20 anos de ocupação não conseguiram impor uma democracia, talvez porque a democracia e a liberdade não se podem impor do exterior, têm de ser conquistadas. Ainda assim, o retrocesso e o aumento das desigualdades não deixam de ser terrivelmente preocupantes.

No dia seguinte ao desaparecimento de Jorge Sampaio, um dos nossos Maiores, no que diz respeito à defesa da Liberdade, da Democracia e da Igualdade, e a quatro dias de se assinalar o Dia Internacional da Democracia é uma boa altura para pensar naquilo que queremos ser.

Sabendo que as desigualdades são inimigas da Liberdade, sabendo onde estávamos há 20 anos e onde estamos hoje, onde queremos estar daqui a 20 anos? O que estamos dispostos a fazer para tomar nas nossas mãos a sobrevivência da Democracia e da Liberdade?

Sugiro que comecemos por exercer sistematicamente direito de voto e de participação cívica que tanto trabalho deram a conquistar. Pela minha parte, começo já daqui a duas semanas, votando em quem me dá mais confiança.