Todos promovem a imagem da Madeira

Entre o anedotário regional está uma pretensa piada sobre um indivíduo alcoolizado a pedir ajuda a todos os santos de quem se lembrou.

Fulano de tal descia uma encosta íngreme com notória dificuldade e evocou a ajuda de vários santos ao mesmo tempo.

- Nossa Senhora de Fátima, São Pedro, Santo António e São José, ajudai-me a descer esta ladeira, balbuciou.

De repente, desequilibrou-se, saltou vários degraus de uma só vez e espalhou-se uns metros mais à frente.

Resposta do bêbado:

- Meus santos, pedi ajuda, mas não era preciso empurrarem todos ao mesmo tempo!

Isto era o que se contava há mais de 40 anos nos bancos da escola e em família nas longas noites sem internet nem telemóvel, nem outros divertimentos.

Serve esse caso para alertar as autoridades regionais para o perigo de ter tanta gente absolutamente empenhada em “promover a imagem da Madeira”. E todos ao mesmo tempo. Há muito tempo.

É que parece haver gente, e sobretudo entidades, cujo único fito é “promover a imagem da Madeira”. Quase não fazem outra coisa.

Uma associação desportiva quer ocupar os seus atletas, promove um evento e alega ganhos de milhões que revertem para a promoção da Madeira. Isto tanto serve para o rali, como para um concurso de fotografia subaquática, como para o campeonato de golfe, um encontro de música, uma festa tradicional, uma concentração de clássicos, um festival de despique, uma mostra de macarrão.

Em variadíssimos momentos e eventos da mais diversificada natureza, o argumento mais comummente usado é mesmo esse: a promoção da Madeira. Por vezes até omitem a promoção da modalidade ou da tradição e escondem o mais possível a autopromoção. Porquê? Porque está convencionado que tudo o que mexe com a imagem da Madeira é bom para a Madeira. Mais do que isso: há uma espécie de certeza inabalável que tudo o que seja para mostrar a Madeira é uma forma de promover a Madeira que tem direito a apoio garantido.

E, claro, as autoridades regionais já nem questionam. Se apoiam a festa da esquina para promover a Madeira, sentem-se obrigados a apoiar o festival-de-qualquer-coisa para o mesmo fim.

E andamos nisto em jeito de bola de neve, imagem que dava uma ideia gira para promover a Madeira, mesmo sem neve. Qualquer dia, uma associação de estudantes ainda sugere um baile de máscaras em Palma de Maiorca para promover a imagem da Madeira. Pior do que isso, as autoridades que zelam pela promoção ainda concedem esse apoio.

E é aqui que entra a história inicial. Com tanta gente a trabalhar e a resolver a sua vida em nome da promoção da imagem da Madeira, essa mesma imagem perde qualidade, sentido, coerência.

Com tanta a gente a promover-se à conta de promover a imagem da Madeira, será natural algum risco de descoordenação. E uma imagem desorientada, mais cedo ou mais tarde, estatela-se.

Será aí que quem manda nisto da promoção vai pensar como o sujeito da história: queremos promoção, mas não toda, nem com todos ao mesmo tempo.

E não! Nem tudo o que fala da Madeira, o que mostra a Madeira, o que recorda com era ou o que anuncia o que vai ser a Madeira tem necessariamente de ser bom para a imagem da Região.

E sim! Em muitos casos, quem se revela muito prestável em promover a Madeira é quem mais ganha com isso. Não necessariamente a Região ou o destino turístico.