Uma teoria e dois axiomas

Vão longe os tempos em que as minhas tardes de domingo eram religiosamente ocupadas à frente da televisão a ver grandes prémios de Fórmula 1, da primeira à última volta e sem direito a chichi. Eram épocas atrás de épocas de discussões intermináveis e inflamadas sobre qual o melhor piloto (claro que era o Sena), qual a melhor equipa (claro que era a Lotus)… bons tempos, afinal o pouco a que tínhamos acesso era tanto.

Nas nossas apaixonadas discussões com os camaradas da escola ou da vizinhança os argumentos eram muito diversificados, mas sempre criativos, pois havia necessariamente que engendrar uma teoria para justificar o êxito ou o falhanço dominical dos nossos heróis de capacete. Uma destas teorias e que me marcou foi a teoria de que os pilotos de Fórmula 1 que vinham do karting tinham um estilo característico de condução e que nas partidas e nos circuitos sinuosos tinham melhores performances, eram mais rápidos e eficientes. Ora bem, confirmando-se esta teoria ou regra na disciplina maior do desporto automóvel, tenho para mim que na política esta regra também se aplica, e claro, sendo uma regra, terá certamente excepções… vou explicar.

Comparando o desporto automóvel, nomeadamente a Fórmula 1 com a política, encontramos muitas e interessantes semelhanças. Começando pelas equipas e pelas marcas oficiais, facilmente se consegue encontrar um paralelismo com os partidos, pois ambos têm cores, logotipos e bandeiras e claro, patrocinadores. Nas estruturas das equipas mais profissionais do automobilismo encontramos os directores técnicos, os engenheiros e os mecânicos, nos partidos também temos as direcções, as comissões e os secretariados que organizam a coisa e põe os partidos a funcionar e a acelerar, trocando os pneus quando necessário e atestando de gasolina as máquinas. Para ombrear com os pilotos temos claro os políticos que vão a votos e que se apresentam apoiados pelas respectivas equipas aos sufrágios, leia-se grandes prémios. Nos grandes prémios temos os “tifosi” que se amontoam nas bancadas, na política temos os eleitores que gostam mais de uma equipa do que outra e que querem ver o seu piloto a passar em primeiro lugar, infelizmente esquecendo-se muitas vezes de ir apoiá-lo à pista, preferindo ficar em casa a ver a novela...

Comprovadas as semelhanças entre a Fórmula 1 e a política e constatando que são inúmeras, temos agora que densificar o papel dos pilotos e de que forma o karting está relacionado com a política. Pois bem, resultado de infinitas horas a
ver carros a passar a grande velocidade e depois de centenas de ultrapassagens observadas, posso concluir que os pilotos de karting estão para a Fórmula 1 como os autarcas estão para a política. A falta de meios, as pistas esburacadas, as equipas reduzidas, as viaturas empenadas, os patrocinadores inexistentes, as provas apinhadas de concorrentes e tantas outras particularidades fazem dos nossos deputados municipais, presidentes de junta, vereadores e presidentes de câmaras uns verdadeiros campeões. São estas difíceis e tortuosas provas que os modelam e prepararam para os desempenhos futuros… para a Fórmula 1. Depois das provas autárquicas qualquer político está em condições de enfrentar qualquer outro circuito ou disciplina, sempre com humildade, dedicação e claro, pé no acelerador.

Esta teoria, apesar de ainda não ter sido comprovada cientificamente, apresenta factos irrefutáveis, assim como dois axiomas inevitáveis. O primeiro axioma diz respeito à hipótese de que mesmo não passando pelo circuito autárquico, um político poder vir a ser um imbatível campeão, verdade apenas e só se o candidato vier da área social-democrata. O segundo axioma apresenta-se como a antítese do primeiro e demonstra a possibilidade de um político mesmo passando pelas provas autárquicas não apresentar a menor capacidade ou jeito para pilotar qualquer viatura, seja motorizada ou mesmo a pedais. A evidência desta proposição radica unicamente na condição do piloto apresentar tendências socialistas e/ou confiança despropositada…