A vacina, a comunicação e a ansiedade

Um fenómeno bem estudado pela ciência psicológica é o de as ameaças novas gerarem ansiedade, sobretudo se a sua magnitude for elevada e a capacidade individual para lidar com as mesmas limitada. A pandemia que procuramos controlar é um exemplo que ilustra isto. Mas se a apreensão é justificada, face à realidade que está à nossa frente, a capacidade de respostas adaptativas perante a ameaça, o que inclui a confiança e a adesão à vacinação, dependerá de muitas variáveis, incluindo a forma como encaramos a realidade e o tipo de comunicação a que estamos expostos.

Da mesma forma que, se passarmos muito tempo a ver dados avulsos e notícias sobre crimes, poderemos ficar com uma percepção distorcida da realidade da criminalidade e do risco pessoal com a mesma, se estivermos todo o nosso tempo expostos a uma cacofonia de comentários, especulações e conjeturas na internet, a consumir dados avulsos e coberturas permanentes, pouco elaboradas e alarmistas, ou não estivermos alerta para as teorias da conspiração sobre situações relacionadas com o coronavírus e com as vacinas, mais prováveis serão os enviesamentos na nossa perspetiva sobre estes assuntos. Até porque, ao contrário da evolução do conhecimento, as teorias da conspiração são imunes aos factos e muito eficazes a ajustar-se a cada momento.

Mas estes princípios não se aplicam apenas à esfera da gestão de cada um de nós como cidadão. A comunicação de risco, a comunicação em saúde e a forma e o local (incluindo que tipo de redes sociais) como as mensagens são transmitidas e as decisões e os problemas explicados é um aspeto central que deve ser tido em conta pelas autoridades e, já agora, por todos os especialistas em saúde ou em áreas afins que se pronunciam sobre a pandemia. Como dados recentes têm mostrado, as pessoas conseguem lidar com a incerteza e mostram-se mais resilientes quando os mensageiros são fiáveis.

A forma como os media e outras instituições veiculam informação e promovem o debate é também essencial. Desde logo, porque não podemos esperar bons resultados se, num debate, colocarmos no mesmo patamar de credibilidade um especialista num assunto (digamos um cientista) e alguém que defende que as vacinas causam autismo ou que as alterações climáticas são uma fraude, ou se se apresentarem dados avulsos e sem um devido enquadramento (como por exemplo a questão - que estava prevista - de haver pessoas vacinadas que tiveram infeções ou até complicações).

É por isso também mais uma vez o momento de não esquecermos o papel das dimensões psicossociais associadas à vivência de uma pandemia e de procurarmos olhar para a realidade de forma informada e por isso eficaz - quer por parte de quem emite a mensagem, quer de quem a recebe.

Os resultados positivos da vacinação são bem evidentes e felizmente o nosso país é um dos que apresenta uma população com maior confiança nas vacinas. Mas isso naturalmente não nos “imuniza” totalmente contra as conspirações e sobretudo chama a atenção para a importância de como se comunica. Em suma, cabe-nos a todos, quer a nível individual, na forma como gerimos o nosso acesso à informação, quer da responsabilidade social que as instituições e os decisores têm, não reforçar a desinformação e não abrir espaço para que conspirações façam o seu caminho.