Se ver livre de cacos

Estimadíssima família Madeirense, hoje escrevo novamente acerca de património, algo que estudei um pouco e estudo e que me preocupa, ainda mais quando se trata da nossa terra. Não sendo um “opinador” de tudo e mais alguma coisa, nunca presentearei vossas excelências com temas como política, medicina, futebol, modas e por aí adiante, a não ser que me falte o engenho para outras linhas. Não sou sabichão e tenho perfeita noção da minha ignorância, por isso apenas tento reflectir acerca do que despendo algum do valioso tempo desta vida.

Rodney Harrison, em dois dos seus livros acerca de património, Heritage Critical Approaches 2013 e Understanding the Politics of Heritage 2010, tem uma abordagem algo polémica acerca do excesso de património, nomeadamente em museus, e da necessidade de um conceito predador em relação a algum desse património. Ora, traduzindo por miúdos, “se ver livre de cacos”, deitar fora, limpar, reciclar, queimar, e assim que tal. A sua abordagem e interessante metodologia, consiste em sinalizar o que é já obsoleto e sem grande relevância para se continuar a preservar. Claro que é um conceito polémico, subjectivo e susceptível de variadíssimas leituras. Existe por aí os acumuladores e os minimalistas. Quando li estes dois livros, pensei de imediato que este conceito poderia ser adaptado a infraestruturas e “cacos” modernos que careceriam de ser removidos e extintos.

Transportando para a Ilha da Madeira e uma vez que é urgente que a natureza ganhe espaço, lembrei-me logo de vários locais e infraestruturas que ganhariam com este conceito, aliado, pois claro, a outro conceito pouco falado e quanto a mim a carecer de ser implementado por aqui que se chama de Renaturalização. Alguns recantos da Ilha teriam muito a ganhar com este método, à imagem de outros destinos que viram o excesso de modernidade e urbanização trazer não a glória esperada e sim contextos e circunstâncias desagradáveis, desde a poluição, insustentabilidade e consequente desvalorização e perda de relevância do destino. Sem querer bater no ceguinho ou escarafunchar cérebros com manias megalómanas e desproporcionais à dimensão e características da nossa querida Ilha, diria que existem por aí uns bons cacos para “se ver livre”. Hoje, só a título de exemplo, refiro a badalada Marina do Lugar de Baixo. Quanto mais tempo terão os Madeirenses e visitantes ter de passar por ali e, em lugar de ver o saudoso Atlântico, terão de ver folhas de metal a enferrujar e a cair ao vento? Já toda a gente sabe que foi um erro, já toda a gente percebeu que a Natureza manda mais que a soberba humana. Ganharia ou não a Madeira e a Natureza com este conceito de “se ver livre” daquele caco, renaturalizando aquele espaço e deixando a natureza em paz? Há muitos outros lugares que ganhariam futuro e sustentabilidade com esta estratégia, mas não tenho espaço aqui para dissertações. Pensem nisso se tiverem pachorra.

Outros autores na linha de Harrison, defendem que a Renaturalização é uma oportunidade de ouro para a reinvenção de alguns sectores como o da construção que, em lugar de tudo construir de raiz, terá de virar-se mais para a remoção de obsoletas infraestruturas e conceitos mais equilibrados. Um pouco como as oficinas automóveis que terão de reinventar-se e adaptar-se à onda dos carros eléctricos em lugar da vaga duradoura dos combustíveis fósseis. Estes autores e outros não duvidam que o futuro do mundo terá de passar por uma relação cada vez mais equilibrada com a natureza. Por aqui, a minha sugestão é que comecemos a nos ver livre de alguns cacos. Arrumar e limpar a nossa Ilha pelo seu futuro é fazer o trabalho de casa.