Tributos a um Pai e não só

O artigo de hoje é diferente. 

Alguns dirão que me fica mal usar deste espaço para falar do meu pai a quem tanto devo. Outros compreenderão este texto. A coincidência justificou o escrito a que também associo um próximo momento familiar, onde há também um tributo à sua memória.

Fui interpelado por três acontecimentos recentes publicados na nossa Região:

O primeiro, foi a interessante entrevista do Sr. Dr. Francisco Costa neste jornal onde relata o nascimento da Zona Franca e toda a evolução do Centro Internacional de Negócios da Madeira. Muito a Região deve à sua determinação e dedicação a essa causa. Teve a nobreza de citar o meu pai como uma das pessoas que estudou a viabilidade desse desígnio, juntamente com o Sr. Eng. Humberto Ornelas. Poucos o têm referido. Fica para a posteridade esse testemunho de quem nunca procurou o alento da cumplicidade partidária para fazer valer os seus inegáveis méritos.

O outro apontamento são as referências do Sr. Eng. Duarte Caldeira no seu recentíssimo livro A Agricultura Madeirense e Eu. Deixar escrito com desassombro e de forma livre o que se pensa é um dom e um privilégio numa terra como a nossa. No texto, traça alguns episódios vividos com o meu pai e não se inibe de caraterizar e elogiar a sua personalidade. É certo que a sua grande amizade está bem presente naquele texto, mas não deixa de ser digno de registo um homem de esquerda louvar publicamente um outro homem de direita com quem se unia no amor à terra e à agricultura. Numa época em que medram jeitinhos e apadrinhamentos em prejuízo da transparência e da lisura, estes bálsamos fazem bem à nossa gente.

Por último o Dicionário Breve da História da Autonomia da Madeira do Prof. Paulo Rodrigues, também editado muito recentemente. Um livro que marca o ano em matéria de estudos autonómicos e anuncia outros necessários ensaios. A páginas tantas dedica algumas palavras ao labor da comissão de planeamento da Região da Madeira na elaboração dos III e IV Planos de fomento nos últimos anos do Estado Novo. Noutra secção fala do planeamento regional, autonomizado desde a década de 60 e atribuindo-lhe a introdução do conceito de Região no léxico politico.

Como foi o meu pai que presidiu a essa Comissão no período de maior labor recolhendo o contributo de tantos valores da nossa terra num documento que merecia ser reeditado para se inteirar do muito que então se previu acontecer, não posso deixar passar essa confissão de verdade histórica.

Três acontecimentos desligados, mas coincidentes no testemunho da sua dedicação a esta terra em época de “vacas magras”. A mais de 10 anos depois da sua partida e associados ao reconhecimento regional que simbolicamente ficou registado no nome do Jardim Botânico, estes três acontecimentos que não puderam deixar de ser referidos.

Primeiro por ser natural que um filho se sinta honrado com eles, mas também por atestar que a qualidade e a exigência pessoal conferem uma independência e uma liberdade de espirito fundamental à evolução das sociedades que ultrapassa regimes e partidos. Deixá-lo escrito é um ato de coragem, mas também de consciência.

Saibam os madeirenses aprender com estas atitudes.