Mesa para um

São várias as artérias na baixa do Funchal em que se concentram pequenos restaurantes. Em muitos deles, há muito que a instalação de algumas mesas de esplanada permitiu aumentar a capacidade de serviço e aproveitar as condições climatéricas que nos bafejam ao longo de quase todo o ano.

Em face das restrições impostas com o objetivo de, pelo menos, minorar as condições de contágio foram essas mesinhas de esplanadas que permitiram reabrir muitos destes negócios, e agora começam a permitir retomar uma atividade mais consistente.

Esta semana, depois de um longo período em que quase toda a atividade tem sido feita a partir de casa, voltei ao coração da cidade. Passo agora mais vezes por muitos destes locais, usufruo deles e vejo-os e às pessoas que os frequentam com um olhar diferente. O que me chamou mais a atenção foi o número mais reduzido de pessoas por mesa. Onde antes me habituei a ver três ou quatro pessoas a almoçar, sentam-se agora, em muitos casos, apenas duas. Mas, pior, deixou de ser incomum ouvir alguém pedir uma mesa para um/a.

Como diz Edgar Morin no seu livro “Penser Global”, nós, humanos, temos uma essência trinitária. Somos simultaneamente condicionados pela nossa biologia, pela nossa individualidade e pela sociedade em que estamos inseridos. Nenhuma destas três dimensões pode estar ausente, nenhuma delas se pode sobrepor de forma avassaladora às outras duas.

Ao longo da nossa história, as alterações biológicas são relativamente lentas, embora por exemplo seja fácil perceber que em Portugal, em geral, e na Madeira, em particular, a população é hoje mais alta do que há cem anos: Tal facto deve-se muito à alteração da nossa dieta, que é hoje muito mais rica em proteínas. Já as alterações sociais e, principalmente, individuais são consideravelmente mais rápidas e a maioria de nós dá-se conta de ambas ao longo da vida.

Desde que, em março de 2020, a CoViD-19 foi classificada pela OMS como pandemia, a perceção que temos de nós e do ambiente que nos rodeia, mudou. Desde há dezasseis meses, convivemos menos, com menos gente diferente, estamos mais pobres, estamos mais vezes mais tristes, mais vulneráveis. Estamos, sobretudo, mais sós, ainda que nem sempre nos demos conta disso.

Sem nos darmos conta, pedimos mais vezes mesas mais pequenas, mesas para dois, ou para um. Quase sem darmos conta estamos, lentamente, a erodir a nossa dimensão social. Haverá quem defenda que na verdade deslocámos esse vértice do triângulo para as telecomunicações, para o computador, para as redes sociais, para um relacionamento mediado pela tecnologia, que vivemos no início de uma nova era sociológica. Estaremos na antecâmara de uma sociedade simultaneamente humana e tecnológica, uma sociedade “ciborgue”?

Qualquer que seja a resposta, a verdade é que precisamos do convívio, ao vivo, com as outras pessoas. Para construirmos histórias e memórias significativas com quem interagimos faz-nos falta a partilha do espaço, a visão tridimensional, as cores, o cheiro, o ambiente. Faz-nos falta o toque. Os beijos, os abraços…

Uma aldeia, uma vila, uma cidade, não são apenas casas juntas, fazem-se de pessoas, que se ligam, que se conhecem, que se apaixonam, que se amam, que se zangam, que ficam felizes, às vezes tristes, que caiem e se levantam, que recuperam e interagem sempre umas com as outras.

Começa a ser tempo de nos reinventarmos, de nos reconstruirmos numa sociedade mais justa, mais inclusiva mais solidária. De voltarmos a exprimirmo-nos através da arte, da cultura, do desporto. Precisamos de recriar pontes intergeracionais, em que jovens e menos jovens possam dar o seu contributo para a cidade, para a pólis. Precisamos de nos apoiarmos uns aos outros, não apenas pontualmente, mas por princípio, por solidariedade.

Precisamos de reabilitar e repovoar as zonas históricas da cidade, de trazer mais gente, mais nova, de volta ao centro da cidade e com ela, a segurança, a esperança e a confiança no futuro.

É hora de pedir mesas maiores, do tamanho do nosso coração. Cansei-me de mesas para um.