A lição 100

No rescaldo da reunião número cem do executivo camarário de que faço parte, Ponta do Sol, veio-me à memória as comemorações das lições nº 100.

Como só vivi as que passei, só a essas me posso referir e, finalmente, alvíssaras, saímos da década de oitenta.

As minhas lições cem foram todas experimentadas na década de noventa.

Havia as disciplinas que nunca lá chegavam, como Educação Musical ou Religião e Moral (aqui seriam com hóstias não consagradas, decerto), mas havia as incontornáveis: Inglês, Português, Matemática, História…

Nas vésperas das lições cem a turma mobilizava-se e numa aula apenas, geralmente a número 97, ficava exímia em planificação, organização, estatística e entretenimento. Um trazia a torta “Dan Cake”, mas se outro também queria, então mudava-se o sabor, quanto mais doçaria artificial, melhor. Continuando na roda dos alimentos plastificados que compunham as ditas comemorações, o “cabeça” levantava a voz: “_Quem traz o Tang de laranja?”; “_Quem pede os jarros e os copos de plástico na cantina?”.

Chegados ao dia, o DJ de serviço entrava em grande estilo escola adentro de rádio cassete ao ombro (ou às costas conforme o peso da aparelhagem e o tamanho do transportador). Alguém preparava uma esferográfica da extinta Molin para o caso da fita da cassete embrulhar e ser necessária uma operação cirúrgica de urgência.

Terceira hora, lição cem de Geografia, entra o professor, armado em engraçadinho, diz que em vez de comemoração, vai haver teste. Já as mesas estavam ao canto da sala escura e bolorenta do edifício do Solar dos Esmeraldos com as tortas “Dan Cake”, os “Por do Sol”, os sumos “Tang” e “Dan” (neste caso a palavra sumos também deveria estar entre aspas, mas perdoem-me o sentido figurativo, sei que chamar sumo àqueles pós colorantes de água é uma hipérbole). Leva o professor uns assobios, apupos e palavras menos simpáticas dos alunos ávidos por dar um pézinho de dança ao som de Hathaway…” What is love? Baby don´t hurt me… don´t hurt me, no more”. Resigna-se à revolução instalada e começa, despreocupadamente a comemoração da lição cem.

Dança-se efusivamente ao som de Hathaway e Brian Adams, com este uns “slows” com mãos reciprocamente pousadas nos ombros do parceiro com uma distância corporal de, pelo menos, trinta centímetros.

Partilham-se os doces. Com sorte a Lucy trazia numa taça de plástico o maravilhoso Bolo Porco Espinho que fazia, que consistiam em cubos cobertos de chocolate e côco. Essas eram as lições cem e sem, sem possibilidade de se perder.

A meio da lição 100, cujo sumário consistia, como costume feito Direito, em um singelo: “Comemoração da lição # 100” (se fosse a de Matemática) ou “Comemoração da centésima aula” (se fosse Português), até o professor mais tímido dava um pézinho de dança sobre a tijoleira aquecida pelos “happy feet” adolescentes para as delícias da plateia (e risos também). Não sei o que tinham aqueles pós colorantes de água, mas pareciam fazer efeito até nos senhores professores mais austeros.

Também não sei se hoje ainda se comemora a lição nº 100. Não ouvi o meu filho falar acerca disso, pelo que suponho que já não. Os projetos, os programas, os ratings devem falar mais alto, mas não tão mais alto que a aparelhagem que tocava na sala do mofo do Solar dos Esmeraldos, na Lombada da Ponta do Sol, naquela específica aula cem de Geografia.

“What is love? Baby don’t hurt me, don’t hurt me, no more…”