Os Santos Populares

Estamos no mês dos santos populares.

Em condições normais seriam os primeiros dos muitos arraiais que acontecem habitualmente na Madeira.

 

Na minha terra, em Santana, o São João, como festividade não tinha grande expressão. Não havia música alusiva aos santos populares, nem fazíamos a ceia de São João. Também não enfeitávamos as varandas com flores de papel e balões, nem improvisávamos uma barraca feita de canas e preenchida com galhos de louro no quintal. Ainda assim enfeitávamos os fontenários.

O que me lembro era de outras questões que estavam associadas a este santo: as sortes ou os saltos à fogueira.

Quando era criança ouvia falar no “tirar sortes”, coisas que se faziam e que se acreditava que seriam determinantes em função do resultado.

Lembro-me por exemplo da colocação de ovos em copos de água que eram deixados de um para dia para o outro nas vésperas do São João. O ovo era colocado inteiro dentro de um copo com água. Uma operação que deveria ser feita logo após o pôr-do-sol. No dia seguinte depois do nascer do sol olhava-se para o resultado. Era suposto que se conseguisse identificar algumas formas que apareceriam no ovo. Lembro-me de ouvir falar que se ficasse numa determinada posição com uma determinada imagem, poderia querer dizer que a pessoa brevemente iria viajar. Nessa altura não para fazer turismo, mas sim para emigrar. Também poderia ser qualquer coisa parecido com uma igreja e aí poderíamos estar de um casamento por perto.

As sortes eram uma das formas de se assinalar o São João. Outra tinha a ver com as fogueiras.

Os fachos, pequenas fogueiras que se faziam em plena estrada, era outras das coisas que se faziam pelo São João.

Na minha zona o caminho municipal que não tinha muito trânsito, servia de palco para se montar os tais fachos.

Era aí que se juntavam algum mato e outro tipo de lixo combustível. A fogueira começava a ser montada muito cedo. Na zona toda a gente colaborava. Pequenos e graúdos, todos carregavam qualquer coisa para juntar ao monte de mato que iria ser queimado. Era uma festa. A fogueira era incendiada ao cair da noite. Para alegria sobretudo dos mais pequenos esse era o momento alto do São João.

Esta era uma tradição que se repetia por toda a freguesia. Lembro-me de ver em vários sítios e cabeços outras fogueiras que mesmo à distância, pela grandiosidade das chamas, dava para imaginar a sua real dimensão.

Na fogueira do meu sítio, praticamente toda a vizinhança, vinha para a rua se juntar à “festa’’.

À medida que as chamas iam diminuindo de intensidade, os mais afoitos iam começando a saltar.

Tomavam uma espécie de balanço e depois perante a “algazarra’’ dos presentes arriscavam. Por vezes sentia-se logo o cheiro a cabelo queimado. Era risada da grossa.

Os mais pequenos divertiam-se de outra forma. Lembro-me de pegar em botas de borracha velhas - daquelas que se usavam para regar - enfiava-se num pau e depois queimava-se na fogueira. Assim que tinha chama, percorríamos o caminho em corrida para que os salpicos de borracha a arder fossem deixando rasto por onde íamos passando. Eram momentos de grande alegria. Claro que por vezes sempre acontecia alguma queimadura, até porque muitas das crianças andavam descalças. Entretanto a fogueira já estava mais calma. Era nessa altura que os mais pequenos arriscavam os seus saltos. A pequena festa à volta da fogueira prolongava-se noite dentro. E assim se mantinha a tradição.

 

Gil Rosa, jornalista, escreve

à quinta-feira, de 4 em 4 semanas