Um abraço para o mundo todo

Não sei se já repararam, mas há um silvo que nos entrou na fala. Entre as palavras e, às vezes, até no meio delas, há este «xi» que se prolonga com maior ou menor intensidade, consoante a ventania que nelas cabe. Talvez depois de tanto tempo fechados e (re)condicionados, há uma urgência das palavras que precisam de ser ditas, lidas, ouvidas e adoptadas para existir pois palavras nascituras são ainda uma promessa do que poderá vir.

No dia 6 de Junho, o canal Arte transmitiu as nove sinfonias de Beethoven no âmbito das comemorações do 250º aniversário do nascimento deste compositor, celebrado em 2020. Nove orquestras europeias tocaram as nove sinfonias, em directo, a partir de diferentes cidades europeias. A Nona Sinfonia foi tocada pela Orquestra de Viena – na cidade onde foi interpretada pela primeira vez –, a única dirigida por uma mulher. A referida orquestra instalou-se nos jardins do Palácio do Belvedere, casa de uma invejável colecção de obras de arte do pintor simbolista austríaco Klimt, incluindo O Beijo – que, na verdade, também é um abraço. Klimt viria ainda, em homenagem à Nona Sinfonia, criar o Friso de Beethoven, que surgiu para ser uma obra efémera, foi confiscado pelos nazis, envolveu-se numa polémica sobre a sua restituição, foi adquirida pelo Estado austríaco e está hoje em exibição no Secession, em Viena, onde, desde o ano passado, pode ser visitado ao mesmo tempo que se ouve o quarto andamento da Nona Sinfonia. Esta sinfonia foi considerada pela UNESCO parte integrante da Memory of the World (Memória do Mundo) em 2001. Pela primeira vez, uma sinfonia incluía a voz humana, a palavra ganhava foros de cidade no areópago da música erudita. O seu quarto andamento, baseado no poema de Schiller, Hino à Alegria, inscrevia-se numa visão da raça humana (e, como Etienne Balibar explicava, não há outra) como fraternidade, à qual o poeta e o compositor aderiam. Não é por acaso que o Conselho da Europa, em 1972, e a União Europeia, em 1985, tenham adoptado esse mesmo hino, ou ode, como hino das respectivas instituições. A União Europeia recorda que «[o] hino, que não tem letra, utiliza a linguagem universal da música para exaltar os ideais [também] europeus da liberdade, paz e solidariedade.»

A última vaga de migrantes e requerentes de asilo afluiu à costa de Ceuta, na segunda metade de Maio, na sequência de um diferendo entre Marrocos e Espanha que teve por base o internamento num hospital espanhol do líder da Frente Polisário, que luta pela independência do Sara Ocidental, cuja soberania é reivindicada por Marrocos. Em três dias, chegaram a Ceuta cerca de 8000 pessoas, dentre os quais pelo menos 1500 menores. Quando eu vi aquele abraço de Luna, a jovem voluntária da Cruz Vermelha na praia do Tarajal em Ceuta, e Abdou – no início, era só o rapaz senegalês porque logo depois tinha sido «devolvido» a Marrocos e nem o nome se sabia – percebi que não poderia haver melhor homenagem a «[e]ste beijo [no caso, um abraço] para o mundo todo» que o coro canta no quarto andamento da sinfonia, replicado no Friso de Beethoven por um casal que se beija e abraça perante um coro de anjos (agora, travestidos com batas brancas e coletes reflectores, camuflados do exército e uniformes da polícia). Luna e Abdou, naquele abraço que nos dá guarida, afirmam – com e sem palavras - que aqui e agora os homens podem voltar a ser irmãos. Está tudo literalmente nas nossas mãos, e à distância de um abraço (mesmo em tempos de pandemia). Que o saibamos perpetuar!