Quando vier a primavera

O poema de Alberto Caeiro relembra-nos logo nos primeiros versos que a natureza segue o seu curso independentemente das vontades ou das escolhas humanas.

O mesmo acontece com a Escola que faz florescer os seres humanos, apesar de a cada primavera sermos bombardeados com rankings, forma absurda de classificação das mesmas em função dos resultados dos exames nacionais. Desde 2001 que isto acontece, talvez sirva para os colégios privados no continente angariarem alunos, talvez sirva para aumentar o número de hits nos órgãos de comunicação social que se dão trabalho de fazer os ditos rankings.

Apesar do Ministro da Educação e os seus secretários de estado os tentarem desvalorizar, o facto é que os permitem e cada primavera lá temos de novo os rankings. As escolas privadas destacam-se quase sempre. Mas com alunos provenientes de famílias abastadas, com encarregados de educação com elevado grau académico e que compreendem a importância das habilitações literárias, não é difícil lá chegar. Quanto às escolas públicas vão-se regozijando com efémeros resultados ou melhorias, aproveitando-se a fama enquanto dura.

No entanto estas escolas conquistam importantíssimas vitórias diariamente. Fazem-no quando promovem a aprendizagem da leitura, da escrita e do cálculo. Fazem-no quando desenvolvem projetos artísticos, de saúde, de ambiente, desportivos e outros. São vitoriosas quando servem de elevador social e formam cidadãos empreendedores e solidários, capazes de inovar e de desenvolver a nossa sociedade.

Cada escola insere-se num determinado território, com um contexto social vincado. A escola responde aos desafios que cada território lhe coloca. Nalguns casos através de ajuda alimentar e ação social escolar, noutros casos através do desenvolvimento profissional, não só dos seus alunos, mas também dos pais e encarregados de educação, combatendo a pobreza e o abandono escolar. Noutros casos, ainda, fazem parte das equipas de intervenção social nas famílias em crise ou em dificuldades.

Foram vitoriosas, ainda, durante a pandemia, pela forma rápida como montaram o sistema de apoio às aprendizagens, implementando o ensino remoto de emergência. Este permitiu aos alunos manterem a ligação à escola, incentivando-os e ajudando-os a superar o isolamento e as dificuldades de convivência.

Se isto não é mais importante que os rankings, então o que será da nossa sociedade? Se a Escola está a mudar é para se adequar às novas realidades, o modelo fabril de escola está ultrapassado, os rankings não são mais de que uma tentativa desesperada de sobrevivência deste modelo. Começo a perceber a insistência do PS Madeira na implementação de um plano de saúde mental escolar, deve ser para tratar os defensores dos rankings que insistem que a Escola é apenas para aprender a memorizar, ler, escrever e contar.