Desta luz me escureço

Pediram-me que deixasse entrar a luz, mas é a noite que desvia o meu corpo de males maiores e salva as minhas mãos de um gelo inevitável feito de fomes.

É que eu desejo. Desejo um tempo em que os outros não me sejam estranhos, um tempo em que a luz me veja sem corromper o escuro. Eu sei, a luz é quente e pode tornar líquido o grito embalado na polpa do estômago, dobrar a palavra pela sombra mais funda sob o peso da boca, mas foi assim que desci ao mundo, amando tudo o que desconheço, beijando o osso para chegar à ferida.

Um dia pude escutar o sal do último peixe do mar, toquei as suas guelras com dois dedos inaptos, e dessa viagem não mais regressei. É que eu desejo. Sou uma sombra-ferrugem sem luz por trás dos olhos; e então nasço de corpos lesados e intermitentes, vozes como manchas na casa que ficou por erguer, no jardim que jaz no fundo nuclear das flores. Eu sei, pedem-me que reluza ainda antes do sol, querem-me de olhos abertos na firme rocha da noite. Um dia hei-de ir. Terei pernas rápidas como as que expiraram antes do sangue dos dragoeiros, essas árvores que tanto amei muito antes do meu tempo. E desejarei mais. Misturar-me-ei com o fogo de uma única noite, e hei-de ir, depois, gritar à janela o ardor tão terno dos corpos já mortos.

Se um dia a luz vier, não saberei romper a escuridão nem cair sobre a pele das flores que ainda vivem. Tenho um corpo que pesa imenso sobre a claridade; e não fosse este silêncio, sólido e definitivo, que as palavras distendem até ao pensamento íngreme que faz do meu pulso dormitório, talvez Deus, por maldade, viesse salvar-me do escuro, decantar a primitiva mágoa que um longo deserto reimplanta na terra estremecida, pronta para absorver a minha queda.

Ainda não. Não me largues agora, pois se não toquei ainda o tempo do sopro e do resto. Deita-me a mão e o corpo todo antes que o céu se transforme de vez na terra que não virá devorar-nos, no chão que não reconhece já a forma dos nossos corpos nem a luta que os ilumina para o escuro. Eu sei. Desejo tudo quanto não vejo na sombra claríssima dos teus olhos liminares, incapazes de desferir qualquer espécie de amortecimento. E depois desce sobre nós uma indizível consolação, uma quase beleza que não deve jamais ser consumada.

É que eu desejo, lenta e avidamente, como quem não vê.