Paroles, Paroles...

Estávamos nos anos setenta, nos arredores de Paris. A minha mãe, machiqueira, ainda pelos seus quarenta e poucos anos, perdia-se de emoção cada vez que via na televisão uma das canções da moda romântica de então.

Alain Delon e Dalida, ele do cinema, ela da canção, ambos símbolos sexuais do momento, juntaram-se para interpretar uma célebre canção. “Paroles”. E assim, enquanto Alain Delon, no seu quase irresistível charme latino, ia debitando, em voz quente e estonteante, sugestivos avanços amorosos para seduzir a beldade feminina, Dalida, qual miss universo, contrastando com a ideia estigmatizada da loura burra e fácil, ia resistindo dizendo que tudo aquilo eram “paroles, paroles, paroles…” o que em francês ou no italiano da cantora quer dizer “palavras, palavras, palavras…”. Nunca cheguei a perceber o que mais fascinava a minha mãe. Se era a beleza insuperável do casal, o ambiente de sedução ou se era a expressão “paroles, paroles, paroles…”. Talvez fosse todo o conjunto. Ou talvez fosse porque, apesar de viver em França, a minha mãe guardava em si algo muito próprio dos machiqueiros. A crença nas palavras. O fascínio e sedução pela palavra. Palavras apenas palavras. Palavras que não são mais do que palavras, como dizia a diva Dalida.

Esta ideia trespassa a minha mente sempre que me ponho a pensar sobre o que tem sido a situação política e social desta cidade. E sobre como ainda há por aí uns charmosos que julgam continuar a seduzir a população com palavras bonitas, com frases feitas, com chavões e mentiras que repetidas até à exaustão até parecem verdade. Sem que a maioria as saiba refutar.

Ora, supondo o atual presidente como o charmoso Alain Delon (apenas nas palavras, claro) tentando enganar os machiqueiros como se fossem a bela Dalida (o que também não é verosímil), hoje a canção de Machico seria assim:

(Presidente): Choradinho tipo Calimero, de que o Governo não gosta de mim, que sofremos de discriminação, só porque não houve apoio para os caminhos agrícolas, quando esse mesmo governo investiu milhões no concelho e ainda se disponibilizou para apoiar a reconstrução do cemitério do Porto da Cruz que a Câmara já está há anos para resolver…

(Machiqueiros): …”paroles, paroles, paroles…”.

(Presidente): Choradinho da dívida que era um caos, que tinha parte escondida, que meteram em tribunal e não deu nada, que uma vez era de 40 milhões, depois 25, depois 38, às vezes 20 e outras 18, sem nunca dizer que isso serviu para fazer obras de modernização do concelho que se não tivessem sido feitas na altura nunca mais seriam concretizadas, sendo que hoje a dívida está paga, o que prova que não foi assim tão grave, antes pelo contrário…

(Machiqueiros) ….”paroles, paroles, encore des paroles…”.

(Presidente): Choradinho dos hotéis, do investimento hoteleiro que diz estar a chegar após oito anos a zero, sendo certo que durante décadas as únicas grandes intervenções que fizeram foi a oposição, nos anos oitenta, à construção de um hotel no antigo campo de futebol, onde hoje é o Fórum e, há poucos anos atrás, as providências cautelares que causaram a vida negra à Quinta do Lorde…

(Machiqueiros) ….”paroles, paroles, paroles, …”

(Presidente) … “Je te jure…” Eu juro-vos....

(Machiqueiros): ”caramel, bonbon et chocolat”!?. Palavras fáceis, palavras mágicas, palavras tácticas, “ ….paroles…..paroles…encore des paroles, toujours des paroles ….”