São João

É quase São João. Vamos deitar as sortes! Vamos apanhar mato para a nossa fogueira na eira! Vamos enfeitar a nossa fonte!

Século passado. Anos 70 e 80 aproximadamente. Por aí.

Eram meados de junho e num repente a pequenada surgia na vereda. Era assim para irmos juntar mato na ribeira para as fogueiras de São João que ardiam alegres na nossa eira. Tudo numa gritaria! A ribeira fazia lembrar os filmes do Tarzan e quem tinha uma ribeira assim só podia ser muito heroico e muito feliz. Tudo à volta da ribeira era arvoredo, penhascos, ar puro e liberdade, gritaria, assobios e vozes da gente nova.

- Anda, anda! E levávamos sacas e cordas. Os mais velhos podiam levar uma podoa!  E recolhíamos do chão as folhas secas de eucalipto e as agulhas dos pinheiros e os gravetos das árvores. Limpeza útil divertida! Os gravetos podiam servir para a senhora Ilda que teimava em cozinhar como antigamente num lar de pedra! Subíamos até lá cima pela encosta e íamos arrastando a folhagem e os paus e só lá em baixo metíamos tudo dentro da saca e depois upa com aquilo para as arcas e carregávamos de olhos quase fechados para a eira. Não se via nada com a saca às costas a não ser os pés. E da ribeira à eira ainda era um esticão. “Cuidado ao passar atrás da casa da senhora Aninhas que ela vai brigar se deitares cisco no chão”! Paciência! Mas este ritual era muito preciso para toda a gente poder saltar à fogueira e ficar pura e livre de maus olhados. Nesse dia, não havia medo das feiticeiras, porque a nossa missão era sublime e superior e elas, malditas, não se atreviam a se meter com a gente!

Meu pai já tinha os balões todos prontos feitos à mão com papel de seda de várias cores e colados com milho para não gastar a nossa cola UHU da escola. Aquilo era um dinheirão e um belisquinho de milho servia na perfeição para colar os balões com a base em cartão, uma verga em forma de arco para segurar e um gancho em forma de S para pendurar nas vergas do nosso corredor da vinha. E depois da ceia de São João, semilhas, feijão, pimpinelas e atum de escabeche, meu pai acendia as velas que colava com um pinguinho de cera, com todo o vagar do mundo, no fundo de cada balão!

As raparigas também deitavam as sortes para saberem com precisão se iam ser felizes ou não, um ovo cru para dentro de um copo! Talvez nas claras do ovo vislumbrassem um barco que as levaria para fora da ilha, um paraíso sonhado e feliz para toda a vida; talvez uma igreja, prenúncio de um casamento harmonioso que seria um encantamento! Também na horta apanhavam favas e arranjavam três diferentes, tirando parte do branquinho da fava ou tudo ou nada, e iam pô-las debaixo do travesseiro. Na manhã de São João, de olhos fechados, as raparigas tiravam uma das favas. Se lhes saísse a despida, sem nada de branco, queria dizer que seriam pobres. Se saísse a meio despida, queria dizer que seriam remediadas. Se saísse a completamente vestida, queria dizer que seriam ricas. A tia Cesária nessas horas chamava vezes sem conta aquele nome que ela achava ser um bom partido para aquela rapariga que estava a deitar sortes. E ela, estuporada com aquilo, não queria batota! “Não me troque as voltas, tia!” A senhora Maria José de Umbelina, na manhã de São João, antes do sol nascer ia avistar a sua sombra na água do bidão, o sobejo da nossa fonte. Se a visse, era sinal de que estaria viva no ano seguinte...

A torneira da nossa fonte de 1966, no fundo do ribeiro, era areada com esfregão de alumínio, as passadas esfregadas com força com um piaçá e sabão azul. A senhora Agostinha dava as ordens! Faz assim! Vai buscar isto! A senhora Maria José de Umbelina trazia as duas canas vieiras para fazer um arco à frente da fonte e afugentar espíritos maus do sítio! Os varandins da fonte enfeitados com bentas, alecrim e murta, novelos, coroas-de-henrique a compor o conjunto.

Nas imediações da fonte, juntava-se o povo e cantava-se e falava-se e ria-se! E na eira era a magia do saltar da fogueira a ver quem pulava mais alto! Purificação genuína!