Um país embriagado

O país não aprende. Ou melhor, quem o dirige é que não sabe para onde deve nos conduzir, mostrando práticas servilistas que ameaçam milhões de portugueses. As imagens dos distúrbios provocados por adeptos ingleses alcoolizados nos dias que assinalaram a final da Liga dos Campeões, no Porto, antes e depois do recolher obrigatório, a violar todas as recomendações de saúde, ilustram o nosso (des)governo, o qual revela claramente maior propensão para castigar os fracos residentes, permitindo tudo aos “fortes” visitantes. É um Portugal embriagado pela possibilidade de se encher com os ‘restos’ que mais ninguém quer.

E ai de quem culpe a UEFA por aproveitar a oportunidade! Se bem que também se diga que a ocasião faz o ladrão… Mas, convenhamos, se ninguém queria receber o futebol de elite em nome da segurança, pois bem, que culpa tem a UEFA de perceber que há sempre caminho livre até Portugal, que não só o acolhe como considera-o um prémio para os profissionais de saúde! Claro… Os ingleses veem a bola e dão uns valentes pontapés nas regras; sobra (ainda mais) trabalho para os agentes de saúde. Será que o prémio são as horas-extra!?

 

Como se não bastasse o atrevimento de fazer do Porto um salão de festas destinado a ingleses, com alguns hooligans pelo meio, António Costa ainda permitiu que os visitantes pudessem assistir ao jogo no interior do estádio. Já os portugueses, talvez pela fama de serem hooligans temíveis por este mundo fora, continuam amontoados no exterior dos estádios em nome da tal segurança que prefere ter todos ao molhe em vez de separá-los em estádios com capacidade para milhares.

 

Pouco tempo depois confirmou-se o que já se antevia… O desportivismo inglês durou pouco e Portugal, depois da ‘Champions’, voltou a ser excluído da lista de destinos turísticos seguros, de nada valendo o servilismo nacional! Aliás, embora a festa tenha decorrido no Porto – vá lá, incluam também os festejos leoninos em Lisboa para evitar acusações regionalistas –, as perdas do fecho terão agora de ser repartidas por todos os agentes económicos, de norte a sul do país, ilhas incluídas. No Porto, epidemiologicamente, veremos o que sucede dentro de alguns dias.

 

Desenganem-se, todavia, os que julgam que a decisão possa estar somente associada a critérios epidemiológicos, até porque os próprios especialistas – desde que não sejam alguns ingleses –  não encontram razões objetivas que fundamentem a posição do Reino Unido. Encontramos, isso sim, premissas económicas evidentes… São poucos os turistas que se aventuram em terras inglesas por estes dias. Normal. O país que proíbe está bem pior do ponto de vista pandémico do que a maioria dos territórios que são proibidos. Pelo que o mercado interno deve constituir-se como a maior aposta do Governo britânico numa altura em que caminham para a reta final do seu plano de desconfinamento progressivo.

 

No fim da linha, como sempre, estão todos os agentes do Turismo, que ora se animam com as reservas, ora choram os cancelamentos.

 

A Madeira, por exemplo, que vive um período muito mais controlado nesta fase do que aquele que se encontrava quando foi incluída na lista verde britânica, volta à estaca zero. E não desvalorizando os esforços que o Governo Regional vai desenvolver para ser discriminado positivamente do todo nacional, é utópico pensar em alterações nesta matéria. O economicismo nunca fez tanto sentido, mas já nos acompanha desde sempre.

 

Enfim, conhecem a frase “não merece o doce quem nunca experimentou o amargo”. Já merecemos um doce, mas não há maneira de encontrá-lo.