Amor (ou a falta dele)

Não é por acaso que representamos o amor na forma de um coração. Sem coração não há vida. Sem amor também não!

E porquê escrever sobre este tema clichê? Porque por mais que escute as pessoas à minha volta a falar dele, por mais que as veja a fazerem coisas em nome dele, tantas vezes vejo-as distantes dele mesmo. Quantas vezes não ouvimos já as pessoas a procurarem garantias nas relações como se de negócios se tratasse com desabafos como: “Se eu invisto e não dá certo?” Numa perspetiva psicanalítica, existem constelações amorosas disfuncionais nos relacionamentos que nos impedem de viver um amor genuíno e que devemos evitar.

 

A primeira é a do dador-recetor, um amor que negligencia o próprio. Nestas relações, um dos parceiros desenvolve uma capacidade escravizante de satisfazer as necessidades do outro, de forma a garantir que não vai sofrer a perda do amor e que não será deixado. Contudo, não se trata propriamente da perda de amor, porque o parceiro que o explora em função das suas necessidades não o ama verdadeiramente. Este parceiro não se ama a si próprio nem ao outro, apenas tolera a frustração de abdicar de si para satisfazer o outro. Estas pessoas colocam-se perante o amor de uma forma infantil, no sentido em que sem se darem a conhecer nos seus desejos e necessidades, ficam na ingénua expectativa de que o outro os vai adivinhar, reforçando a ilusão de alma gémea que sabe o que o outro sente por analogia.

 

A segunda é a do amor distante, onde falta a intimidade e o conhecimento mútuo. Estas relações ficam no limbo entre a proximidade e o distanciamento e os sentimentos ficam numa espécie de banho-maria. Os parceiros estão alienados em relação à sua própria vida emocional, aos seus interesses, atributos, desejos e falhas. Como não sabem do que precisam, então precisam de qualquer coisa. Estas pessoas unem-se porque sim, casam porque sim, têm filhos porque sim e porque sim ficam juntos pela vida fora.

 

A terceira é a do amor simbiótico, na lógica do dois em um. Esta lógica baseia-se na premissa das almas gémeas, sem espaço para a individualidade. Aqui só pode haver um, pois a existência do outro é vista como uma ameaça. Nesta fantasia de reinado perfeito, não há espaço para a diferença e a mera ideia de que o parceiro tem desejos próprios e diferentes gera insegurança, levando a relações de controle. O que verdadeiramente acontece é que um dos parceiros vive anulado, como a sombra do outro, sem possibilidade de existência real porque isso levaria a uma rutura da relação. São relações abusivas para ambos embora cobertas pela fantasia de comunhão perfeita.

 

Já quando nos disponibilizamos para amar alguém genuinamente, não é só a descoberta do outro que fazemos, mas ainda a descoberta de nós próprios. Assim sendo, amar é uma descoberta mútua. Com diferentes pessoas, inevitavelmente seremos diferentes amantes, pela individualidade que cada um de nós traz para a relação. Mas onde somos sempre donos de nós próprios, porque só quando sabemos quem somos e gostamos do que somos nos podemos encantar verdadeiramente pelo outro. Só este tipo de amor fortalece o sistema imunológico emocional, que à semelhança do sistema imunitário, não nos impede de adoecer, mas evita doenças mais graves e duradouras.

 

Parafraseando Alexandre O’Neill: “O amor é amor – e depois?! Vamos ficar os dois a imaginar? O meu peito contra o teu peito, cortando o mar, cortando o ar. Num leito há todo o espaço para amar!”

 

 

João Bettencourt Craveiro escreve

ao sábado, de 4 em 4 semanas