Equívocos

I – Produtividade vs valorização salarial

Há uns tempos atrás, falava eu com um colega inglês sobre o paradoxo que é ver os níveis de eficiência, produtividade e inovação que algumas empresas nacionais revelam nos seus investimentos no estrangeiro, quando, na Região, mantêm modelos de gestão e investimento de há 50 anos.

O que faz um empresário português ser inovador no estrangeiro e retrógrado em Portugal?

O meu colega avançou com uma possível explicação: os baixos salários praticados no nosso país!

De facto, há pouco estímulo para investir em modernas tecnologias quando a mão-de-obra é tão barata. De que vale ou para quê – sequer! – fazer investimentos em investigação e desenvolvimento (I&D); para quê adquirir tecnologias que agilizem o processo de produção quando se pode ter um exército de funcionários mal-pagos? Estou com isto a criticar os empresários? É verdade que não ficam muito bem na fotografia. Até porque a baixa produtividade endémica nacional decorre daqui. Todavia, ao nível da racionalidade do investimento, esta é a opção correta para a maior parte dos empresários. É correta e nem sequer conseguem imaginar outra. Se produzem mais valor investindo menos na inovação, para quê fazê-lo?

Não estando certo se a baixa produtividade não acaba por ser benéfica para muitos sectores produtivos nacionais, a verdade é que apenas conseguiremos sair deste ciclo vicioso se houver um verdadeiro choque social: que acabe de vez com a prática de governação corporativista a que estamos submetidos há 40 anos (antes? Antes era uma ditadura!); que promova o desagravamento fiscal sobre cidadãos e empresas; que reveja integralmente o sistema de Justiça, dotando-o com um melhor enquadramento legal e mais recursos humanos e técnicos; que reforce a formação profissional e ao longo da vida; que invista na qualificação dos empresários e gestores e altere modelos de governança; que acabe com o mito de que os salários só poderão crescer se a competitividade aumentar; que equilibre os rendimentos do trabalho face aos do capital.

Pensando na conversa, fui pesquisar e encontrei um artigo muito interessante do economista madeirense João Abel de Freitas, publicado no Jornal Económico, em 2019. Diz-nos o especialista: “A evolução positiva da produtividade não tem arrastado, em muitos e largos períodos, melhorias salariais. Os aumentos salariais na União Europeia (no período de 2000 a 2016) teriam sido quatro vezes maiores se tivessem refletido os aumentos de produtividade (…).

E se olharmos para Portugal, a situação foi ainda mais gravosa.

Segundo a mesma fonte, houve em Portugal, neste mesmo período de 16 anos, uma redução média dos salários da ordem dos 3% face a um aumento de produtividade de 10%. Evolução salários/produtividade de sinal oposto.”

Ou seja, o economista arrasa a conceção doutrinal, que em Portugal faz escola, no mundo económico, mas também em muitos partidos - nomeadamente aquele em que milito - de que o crescimento dos salários só é possível em razão do aumento da produtividade. E arrasa, demonstrando que isso nem sequer tem sido prática seguida em Portugal, uma vez que, em 16 anos, tivemos um aumento da produtividade e, simultaneamente, uma quebra salarial.

 

II – Linguagem inclusiva ou experimentalismo social

Em Portugal e no resto do mundo ocidental, uma pequena clique estabeleceu a ideia de que para se combater preconceitos teríamos de alterar a linguagem, fazendo-a progredir para um modelo mais neutro. A teoria assenta na assunção de que com a substituição da linguagem neutra se seguirá a queda em catadupa dos preconceitos machistas, sexistas e racistas.

Ora, a sua aplicação no Brasil já levou a um outro absurdo que é a linguagem não-binária, para todos aqueles que não se identificam com o género masculino nem com feminino. Que linguagem é esta? Por exemplo, deixa-se de dizer todos e todas e passamos a dizer todes. Parece patético, mas há mesmo quem defenda isto. Independentemente das implicações que estes absurdos terão na Língua Portuguesa (como fica o neutro já existente, por exemplo?), ou com as dificuldades acrescidas que trarão a disléxicos, surdos (para onde evolui a Língua Gestual Portuguesa?) ou aos cegos (e o braile?).

E tudo isto em nome de quê? Da mera crendice de que mudando a língua, mudamos a forma de pensar e de agir. Uma crendice pura, sem qualquer sustentação científica. Mas ao ouvi-los falar parece que todos nós é que somos mentecaptos, incapazes de ver a luz. E assim vamos…