Pensar mais a Sul

É difícil compreender qual a razão que todas as atenções, lamentações, preocupações, condenações estejam voltadas para o conflito Israelo-árabe, para os banhos de sangue e devastação que acontecem com frequência naquela zona do mundo onde no último conflito morreram 219 pessoas adultas e 63 crianças em consequência de ferozes combates bélicos.

Por mais paradoxalmente que seja “a guerra dos seis dias” ainda sem solução à vista, depois de amanhã, completa 54 anos.

De Portugal todas as atenções se concentram agora em Palma, Cabo Delgado, Moçambique, onde nos últimos três anos foram ceifadas de forma repugnante milhares de vidas como é do conhecimento geral, ações terroristas que ameaçam agora toda esta região. É difícil compreender, porque, na África do Sul, são assassinadas 21.375 pessoas anualmente, uma média diária de 58 pessoas, às vezes mais até e onde continuam as matanças rituais, a vitimização de mulheres e crianças na sociedade sul africana onde se insere a nossa Comunidade deveria ser motivo de interesse a nível mundial, das NU cujo Secretário-Geral conhece bem a situação que se vive na África do Sul e que apesar do  presidente Cyril Ramaphosa se ter revelado um campeão da luta contra a violência baseada no género com algum sucesso ainda há muito por fazer.

Não é aceitável, não há justificação possível o assassínio de tantas mulheres e crianças, meramente, com o propósito de remover as suas partes privadas e outros órgãos. A ligeireza que a polícia trata desta categoria de crime, reforça em mim, a perceção que é também cúmplice desta atividade pois os assassinos vagueiam livre e felizes pelas ruas do país. Não consigo compreender, como um governo que proclama assídua e publicamente a sua luta contra a violência de abuso de crianças, meninas e mulheres, de forma particular adolescentes, cruza os braços face a toda esta categoria de ocisão.

Mulheres e crianças desaparecem sem deixar rasto ou então os seus corpos são encontrados desmembrados e mutilados. Interrogo-me se as pessoas habitando nesta parte de África são consideradas a prole de um Deus Menor, dada a nítida abstração que se constata da comunidade internacional, o que é deveras inquietante, pois as pessoas vivem permanentemente atemorizadas com toda a esta barbárie que se verifica também nos 16 países membros da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral).

Era aconselhável, fazia todo o sentido que a comunidade internacional se debruçasse não só nos conflitos do Médio Oriente, ou de Moçambique, mas também nesta parte de África pejada de compatriotas que se sentem permanentemente ameaçados por toda a violência que acontece no país promotora de devastação e indignação das pessoas que se sentem desprotegidas, inclusivamente, da polícia e da justiça, últimos redutos de esperança e defesa de qualquer cidadão