Criar para poder repartir

Machico, a atual câmara, só pensa em distribuir apoios pelos mais fragilizados. Outros também o fazem, o que parece louvável. Mas é preciso mais. Mais emprego, mais riqueza. Sem isso, ou os jovens continuam a emigrar ou mudam a política municipal. Uma das duas coisas vai ter de acontecer porque o município está estagnado. Está como uma traineira encalhada.

A pandemia veio, entre outros, pôr a nu as fragilidades sociais do país. Afinal, os dados apontam para mais de dois milhões de pobres em Portugal. Uma brutalidade. E os censos vão trazer novas surpresas. O que dá para questionar toda a política nacional das últimas décadas sob o domínio quase absoluto das esquerdas encabeçadas pelo PS. Dois milhões de pobres e uma dívida pública de mais de 130% do PIB ao que somamos uma bancarrota, mesmo depois dos biliões recebidos da UE, é o saldo de políticas erradas que, mesmo assim, continuam a ser defendidas pela maior parte da população e pela narrativa dominante na comunicação social. Machico segue essa narrativa.

Mas é para responder às necessidades do futuro que o papel da câmara municipal não se deve resumir à tentadora política assistencialista, embora lucrativa em termos eleitorais. Tem de ser mais do que isso. Tem de ajudar nas medidas promotoras do desenvolvimento, de criação de trabalho e riqueza, sem o que não há rendimento para distribuir. As autarquias não devem deixar essa responsabilidade apenas para a Região ou para o Estado.

Os dados estatísticos recentes, que tudo indica os novos censos vão confirmar, fazem um retrato preocupante de alguns concelhos da Região. Machico é um deles. Hoje, é o quarto concelho em todos os indicadores. Longe vão os tempos em que era segundo. Com uma população cada vez mais envelhecida, o concelho está ancorado numa enorme percentagem de reformados e pensionistas, num número avassalador de funcionários públicos e numa quantia galopante de desempregados e subsídio-dependentes. No ativo, no tecido empresarial privado, conta-se a parcela mais pequena e mais exposta à crise. O que, para quem sabe fazer contas, é deveras assustador. Não há investimento em nenhuma área reprodutiva, não há criação de novos postos de trabalho. Os jovens viram as costas e o inverno demográfico é cada vez maior. Dificilmente atingiremos os vinte mil habitantes neste novo recenseamento. Estamos assim a andar para traz, como o caranguejo.

Solução! É verdade que não há milagres. Que nem tudo depende da Câmara. Que o mesmo acontece em outros concelhos. Que estamos numa ilha forçada a ondas de emigração. Mas caramba. Nem só de solidariedade social, de auxílio aqui ou ali, de política de proximidade, de satisfação de alguns agentes locais vive o município. Passado este período de pandemia, é hora de ser mais ousado. Agora que vamos entrar numa nova realidade, noutra normalidade, é tempo de pensar na criação de mais riqueza para o município. Mais investimento, mais fixação de empresas privadas, mais empreendedorismo, captação de novos nichos turísticos, apoio às novas realidades tecnológicas, nova dinâmica sociocultural. Enfim, é tempo de perceber que é sobretudo com mais emprego e condições pessoais que se combate a pobreza e não apenas com as mesmas políticas assistencialistas.

Depois dos sacrifícios na pandemia, os jovens têm direito a uma vida promissora e por isso é bom que, nestas autárquicas, façam ouvir bem alto e de forma distinta a sua voz. Foi uma das mensagens do Presidente Marcelo no 25 de Abril. O que também é válido para Machico.