António, o açoriano

Era uma tarde preguiçosa de domingo, talvez uma tarde do fim do Verão, porque o dia estava claro. Era um país distante onde o céu era muito baixo e baço e os trovões, quando os havia, eram tão estrondosos que pareciam rebentar tudo. Era um país distante onde o sol queimava como lume e a neve entupia as casas e as ruas. Era um país distante onde eu procurava louca as nossas fazendas e as minhas levadas de águas calmas e cantantes. Era um país de saudade.

Foi numa dessas tardes de tempo calmo, depois do almoço, que meu pai disse a minha mãe, pela primeira vez: “Vamos a casa de minha irmã! Apronta as pequenas!” A tia Olívia morava noutra cidade, de modo que minha mãe ficou com medo de nos perdermos. Mas meu pai deu confiança, porque tinha estado, quando os tios nos iam pôr a casa, muito atento às ruas e lá fomos, a pé, claro. Era a primeira vez que fazíamos aquilo! Meu pai ia à frente e nós atrás e íamos devagar pela avenida dos plátanos ou carvalhos, não sei, os esquilos a saltar de galho em galho, a subirem e a descerem o tronco da árvore e a comerem bolotas. Depois, essa avenida acabou e metemos por uma rua calma com prédios de um lado e do outro. Havia rapazes a brincar à bola na berma da estrada, muitas roupas espalhadas nos estendais e minha mãe que estava tão deprimida com aquele país frio de neve e quente de lume, um aperto tão grande no coração e uma agonia que não podia respirar, encantou-se com os cântaros de flores à entrada desses prédios baixos e com a frescura das roupas alvas.

- Antóóóóóóóóóniiiiiiiiiioooo – ouviu-se. Todos estremecemos. Até eu dei um pulo no meu coração. E minha mãe correu para a voz. E nós corremos atrás dela. “António” era Portugal, “António” era o elo, o encontro com a pátria, um achado, um tesouro. E o António, um cabritinho à solta de olhos muito vivos, respondeu: “Já vooooouuuuu”. Meteu a bola debaixo do braço, limpou o suor da cara à manga da camisola e entrou aos saltos em casa.

Quem eram aqueles naquele fim de mundo a falar português? E minha mãe chamou: “Senhora…” E ela, que tinha um avental posto e estava afogueada da cara com as voltas da casa, começou logo a tratar minha mãe por “tu” e a dizer para entrarmos e para bebermos café com leite. E minha mãe dizia que não gostava de leite e ela achava que minha mãe estava muito magra e etecetera, etecetera… Para entrar na casa tínhamos de descer dois degraus, precisamente onde, à moda madeirense, havia vasos de flores dum lado e do outro das passadas. Eram açorianos. Falavam com muitos apupos, mas a grande alegria de minha mãe e de meu pai disse-me que não havia medo nem perigo naquela gente. Minha mãe cresceu de alegria. Ouviu coisas e disse coisas. A Madeira e os Açores em cima da mesa à hora do café da tarde. Minha mãe, o rosto calmo e sorridente, feliz. Meu pai feliz e eu também! E esse tal António, saltitão e irrequieto, sempre livre como um pássaro saltitão na rua.

Quando chegámos a casa da minha tia, ela espantou-se connosco! Era perigoso! Mas a gente estava contente e não fez mossa o sermão.

Depois, começaram os dias frios e cinzentos, carregados de chuva e neve e certamente o António deixou de jogar à bola na rua…