Depois da fartura, vai chegar a fatura

Nos últimos tempos, mesmo sem nos apercebermos, estamos a aprender vários ensinamentos. Vários mesmo. Tantos que ainda nem é possível fazer uma lista coerente do que aprendemos no último ano.

Parece um estranho fenómeno de aculturação involuntária. A bem ou a mal, entusiasmados ou a contragosto, satisfeitos ou deprimidos, todos mudámos um pouco da nossa vida. Inclusive, todos aceitámos abdicar de parte dos nossos direitos, concordando ou não com isso.

O medo, sendo bem real - como é o caso - constitui uma ferramenta poderosíssima. Com medo não são precisas grandes teorias. Estão dispensadas as explicações mais profundas. São desnecessárias manobras de convencimento das massas. Com medo, seguimos quase todos uns atrás dos outros. Com medo, interpretamos, quase todos, o famoso papel de ‘Maria Vai Com as Outras’.

Porquê? Porque é assim a natureza humana. Porque é da vida. Porque somos humanos. Porque temos medo, embora tenhamos vergonha de o assumir.

Curiosamente, o medo inicial da pandemia deu lugar a outras fases. À medida que fomos encarando o bicho, também fomos passando de nível, como nos jogos eletrónicos do início do século.

Deixámos de estar todos juntos, mas ganhámos competências individuais ou de grupos restritos. Aprendemos a dar valor à varanda e aos jantares caseiros. Trocámos as saídas por comida encomendada, que chega de mota. Deixámos para trás o vigoroso aperto de mão e exibimos agora um cotovelo ou um soco para saudar efusivamente outras pessoas. E já esquecemos o que é cumprimentar com um beijo ou um toque mais carinhoso.

No tempo do distanciamento social aprendemos também o teletrabalho. De forma mais rápida do que seria esperado, todos reunimos aptidões que nem suspeitávamos ter. O mesmo com o telensino. O mesmo com a medicina à distância ou com as reuniões por videoconferência.

E, apesar de tudo, um mínimo de honestidade intelectual obriga-nos a reconhecer que estes últimos 15 meses podiam ter sido piores. Não ficámos todos bem, como previam as campanhas ingénuas, mas também não se cumpriu a catástrofe social e económica que se desenhava. Pelo menos até agora.

Até agora, tem havido dinheiro a rodos. A mão cada vez mais visível do estado social tem amparado a queda de uns e minimizado as feridas de outros. Direta ou indiretamente, todos beneficiamos das ajudas dadas pelos generosos governos nos seus diferentes patamares. Os mais carenciados beneficiam dos cabazes, dos medicamentos e de outras ajudas imediatas, mesmo as que são duplicadas em tempo de eleições. A classe média remedeia-se com os apoios que chegam sob a forma de subsídios, de lay-off ou de moratórias que vão sendo adiadas. E os mais abastados vão disfarçando a crise.

Até agora tem sido assim. E vai ser assim enquanto durarem os empréstimos assumidos por Câmaras e Governos. Vai ser assim também enquanto houver bazuca europeia. Vai ser uma fartura.

Mas vai ser sempre assim?

Parece evidente que não. Um dia, não se sabe bem quando nem como, vai chegar a fatura de toda esta fartura. Um dia este festim de ajudas feito à conta de dinheiros públicos vai acabar. Vivemos um tempo semelhante ao que experimentámos quando compramos uma televisão topo de gama com cartão de crédito. O aparelho é instalado, tem imagem de qualidade, som fantástico, dezenas de opções. Uma maravilha que parece não ter custado nada. Mas custou.

As prometidas ‘suaves prestações’, às vezes até sem juros, têm de ser pagas de acordo com a fatura.

Será que alguém sabe quando nos será apresentada a fatura desta crise disfarçada com dinheiro público?