600 mil euros, 9615 imigrantes e 96 anos do Andorinha

Terá sido certamente uma comoção, a inauguração em Oeiras, dos 17,59 metros de puro despesismo de Isaltino Morais.

O obelisco do escultor Júlio Quaresma custou ao metro nada mais nada menos que 34 mil euros e mais uns trocos. Os oeirenses residentes no Oeiras Valley de Isaltino devem estar rejubilados com o seu faraó, peço desculpa, presidente de câmara, que em ano especialmente difícil para todos os portugueses, desterrou dinheiro numa estátua ao seu ego. Claro que sou má língua, e claro que vão dizer-me que isto é um apoio a uma área que tem sido tão negligenciada, a cultura, e vejo-me obrigada a concordar. Aliás, diria que fazem falta apoios à cultura mas especialmente urgem apoios à literacia. Não é que o dito obelisco tem um erro ortográfico do tamanho do Mundo, ou melhor dizendo, quase do tamanho do ego de Isaltino? Sim, pior ainda que o cartaz empunhado pelo dirigente máximo de um sindicato de professores local, que teve o azar de colocar um h a mais, e com isso feriu mais a visão que a dita falta de audição que pretendia imputar. Ora, a placa do obelisco diz aquilo ser um espaço de cultura e “laser”, e não lazer. Não será um lapso grave se pensarmos que o tal do obelisco tem algures um raio laser, e que pretende ser “polo de atração da energia celeste, fazendo a ligação desta à Terra”. Isto, vendo bem, por tanto metro de obelisco, raio laser, energia celeste e erro ortográfico incluído, até saiu barato.

Portugal de repente acordou e deu-se conta de que tinha 9615 imigrantes em Odemira. Puff. Qual geração espontânea qual quê! Um português deita a cabeça descansado na sua almofada à noite, num país livre de tráfico de pessoas, sem angariação de mão de obra ilegal, sem imigração ilegal e acorda num país com imigrantes que vivem amontoados, sem condições de higiene e sem acesso à saúde? Violação dos direitos humanos em Portugal? Ninguém sabia disto, obviamente! Incluindo o Governo de Portugal que jurou de nada saber. Só o extinto SEF, pelos vistos sabia. Esses tinham um relatório que contava os tais 9615 imigrantes. Aliás, o SEF que pertencia ao Ministério da Administração Interna, de Eduardo Cabrita, ministro do governo português. Cabrita ou Barata? É que o homem sobrevive literalmente a tudo. E pergunta o leitor se isto não será um caso de polícia. É claro que sim. Melhor, é um caso para a unidade de intervenção da GNR, com um contingente de mais de 200 homens munidos de armas e cães, entrar de madrugada num empreendimento privado, requisitado pelo Governo para albergar parte dos tais imigrantes que todo o país desconhecia.  A GNR, que atualmente herdou as funções do falecido SEF, aparece na cena do controlo de entrada de estrangeiros no nosso país, à filme de Hollywood. Bravo! Em Portugal não se brinca com coisas sérias.

E porque nem tudo são coisas más, o Clube Futebol Andorinha completou 96 anos. Isto sim, é uma data que não posso deixar passar em claro. Este clube foi a minha segunda casa durante todos os anos em que joguei badminton, juntamente com a minha irmã, e é hoje o clube das minhas duas filhas, no triatlo. O Andorinha não ocupa somente uma estante em casa dos meus pais com as taças e medalhas, arrecadadas ao longo dos anos pelas mulheres da família, ocupa sobretudo o coração do meu pai. O meu pai é dirigente desportivo no Clube Futebol Andorinha desde que me lembro. Sem olhar a cargos, foi vogal, tesoureiro, e vice-presidente executivo. Um sócio de sempre e para sempre. Posso dizer que vivi verdadeiramente o Andorinha pela mão do meu pai. A luta e o sacrifício pela construção do campo de futebol, a alegria de ser campeão da Série Madeira na 3.ª Divisão e a subida à 2.ª Divisão Nacional, ficarão para sempre gravadas na minha memória. Obrigada, Pai. Sobretudo a ti, obrigada! Um bem-haja a todos os que diariamente vestem a camisola deste grande clube de Santo António. Parabéns, ao nosso Andorinha!