Educação (ou a falta dela)

Educar é o mais nobre trabalho que realizamos enquanto seres humanos.

Foi este o mote lançado por alguém próximo que ainda esta semana me desafiou a falar sobre o tema, mas pelos piores motivos. Confidenciava-me com alguma perplexidade que são cada vez mais frequentes os episódios onde sentimos a falta dela, sobretudo nos mais jovens. Onde a exceção virou regra, com filhos a desafiarem os pais e a manifestarem comportamentos desviantes e incivilizados, algo que contrasta violentamente com as memórias que guarda da sua infância, onde imperava o respeito e a deferência pelos mais velhos.

Como oportunamente alertou Javier Urra, o Psicólogo autor do famoso livro O Pequeno Ditador, têm vindo a crescer em número os pequenos tiranos que desenvolvem a conhecida síndrome do imperador. São crianças insensíveis emocionalmente, com escassa responsabilidade perante um castigo e que apresentam dificuldades no desenvolvimento de sentimentos de culpa. Impõem a sua lei em casa, são caprichosos, não têm limites, dão ordens aos pais, dominam a vida familiar e chantageiam todos aqueles que se colocam no seu caminho. Querem ser o centro das atenções, são desobedientes, desafiantes e não aceitam um não. Estas crianças, não raras as vezes, tornam-se adolescentes conflituosos e contribuem para um grave problema social – a violência juvenil.

Entre as principais causas desta tirania infantojuvenil, está uma sociedade permissiva, que (des)educa os filhos nos seus direitos, mas que se esquece dos seus deveres. Que cede, que não impõe limites e que tudo lhes permite, com o pretexto de não os traumatizar. Em suma, vivemos numa sociedade onde existe uma total falta de autoridade dos pais perante os filhos, rompendo uma das mais sagradas normas que sustentam a nossa sociedade – o respeito. Para isto contribui ainda uma crise de responsabilidade na sociedade, que mudou do primado do sacrifício por um ideal hedonista, onde tudo se quer alcançar com o menor esforço possível.

Quando uma criança é demasiado mimada, quando a deixam fazer de tudo e nunca castigam para não lhe traumatizar, esta atitude equivale a maus-tratos por negligência, porque impede que a criança se desenvolva corretamente. É importante não esquecer que a criança é o pai/mãe da humanidade. Logo, uma criança mal-educada constitui um sério problema para a sociedade.

Educar é um projeto de vida, do mais belo que há. Envolve entrega, assiduidade, alguns dissabores, mas também muitos sorrisos partilhados. Educar bem é uma tarefa ainda mais difícil. É preocupar-se, ter desgostos, ser flexível, ter critério, dedicar tempo e chorar de quando em vez. Mas é ainda querer, partilhar, ter esperança e aplaudir. É pura vida, é transmissão. Dizem que vale a pena viver para ela – a educação – e a ela dedicar a vida.

Reflitamos sobre as sábias palavras do proeminente Psiquiatra Enrique Rojas: “Hoje em dia podemos falar dos workaholics. Se isto acontece, então surge uma figura na sociedade atual que é a do pai/mãe ausente, que vive em família, mas que não tem presença psicológica. Um bom pai vale mais do que cem professores. Uma boa mãe é a melhor universidade porque se aprendem lições diárias. Isto são coisas que estão a acontecer atualmente na sociedade. Tudo anda depressa demais (…) O grande paradoxo: uma sociedade tecnicamente muito desenvolvida e humanamente muito perdida”.